Blog de terezamalcher_17966

Hoje as crianças vivem a infância com plenitude?

segunda-feira, 21 de agosto de 2023

A Academia Friburguense de Letras está realizando um Ciclo de Palestras on-line, via Zoom, “Os desafios da Literatura Infantojuvenil” e temas diversos estão sendo apresentados durante as palestras. Ontem, Anna Cláudia Ramos, escritora e Mestre em Literatura, abordou a importância do brincar e do ler durante a infância. Brincar. Sim, brincar. Passear pelo universo do “Faz de Conta” com passos criativos, em que a criança recria suas fantasias e os personagens das histórias que conhece. 

A Academia Friburguense de Letras está realizando um Ciclo de Palestras on-line, via Zoom, “Os desafios da Literatura Infantojuvenil” e temas diversos estão sendo apresentados durante as palestras. Ontem, Anna Cláudia Ramos, escritora e Mestre em Literatura, abordou a importância do brincar e do ler durante a infância. Brincar. Sim, brincar. Passear pelo universo do “Faz de Conta” com passos criativos, em que a criança recria suas fantasias e os personagens das histórias que conhece. 

Através do brincar, a criança revive sua realidade, externa seus sentimentos e escuta sua voz. Conhece-se. Sente-se. Apreende melhor o ambiente em que vive, reexperimenta a cultura familiar, comunitária e social à sua maneira. Percebe-se, de modo lúdico, como sujeito, sujeitado, como pessoa afetiva e como indivíduo com características próprias. A cada brincadeira, vai amadurecendo a percepção de si, do outro e do mundo. Quando brinca, a criança se transforma em um animal, que seja gato, papagaio, peixe ou leão. Que seja idoso, adulto e, até mesmo em outra criança. De qualquer forma é a pessoa dela inteira que está ali, construindo sua personalidade, experimentando modos de ser e de fazer diferentes, sendo ela mesma ou não.  

E, diante das telas dos tablets e celulares, que oportunidades a criança tem para se construir? Com um objeto frio nas mãos, que pode ser ligado e desligado a qualquer momento, deixa de experimentar a concretude dos fatos ao interagir com outra criança, vivenciar divergências, competir, estabelecer relações de amizade. Como fazê-lo se não tem o outro, criança como tal, para dialogar, discordar, cantar, gritar?  Gostar e desgostar?

A literatura infantil, ao fazer parte do universo infantil, enriquece a experiência lúdica. A história de Pinóquio mostra que a criança pode construir seus próprios brinquedos e a estimula para entrar no mundo fantástico do “Faz de Conta”, quando Gepeto dá vida a um boneco feito de madeira para ser usada como lenha. Outro fato que posso apontar é que a história aborda a relação afetiva entre gerações, na medida em que Gepeto, já velho, cria um boneco que o trata como um filho e preenche seus vazios. Além de tudo, a história conta as travessuras de um boneco de madeira, exaltando-o como um aprendiz da vida. Outro personagem interessante é o Grilo Falante que representa a consciência do boneco do menino, o superego, a instância responsável entre o eu e o ambiente circundante.

Além do mais, os personagens são fontes de inspiração para a criança encená-los nas brincadeiras e nos teatros que produzem. E, cá para nós, é gostoso imitar personagens e reproduzir suas falas!

A leitura de histórias possibilita o contato do leitor infantojuvenil com sua língua, amplia seu vocabulário e mostra o emprego dos fatos gramaticais, sintáticos e ortográficos. 

Para finalizar, quero fazer uma referência à Convenção dos Direitos da Criança, elaborada pela Assembleia Geral da ONU, em 1989, que promove, protege, e assegura o exercício pleno de todos os direitos humanos e liberdades fundamentais para todo o indivíduo com menos de 18 anos de idade. Indiferente à raça, cor, sexo, origem, religião, classe econômica ou deficiência física.

Publicidade
TAGS:

A Direção do Jornal A Voz da Serra não é solidária, não se responsabiliza e nem endossa os conceitos e opiniões emitidas por seus colunistas em seções ou artigos assinados.

As histórias nos ajudam a lidar com a morte e a segurar a vida pelo rabo

segunda-feira, 14 de agosto de 2023

“Quando olhares para o céu de noite, eu estarei habitante numa delas e estarei rindo, então será como se todas as estrelas te rissem! E tu terás estrelas que sabem sorrir! Assim, tu te sentirás contente por teres me conhecido”

Saint-Exupéry em O Pequeno Príncipe

 

“Quando olhares para o céu de noite, eu estarei habitante numa delas e estarei rindo, então será como se todas as estrelas te rissem! E tu terás estrelas que sabem sorrir! Assim, tu te sentirás contente por teres me conhecido”

Saint-Exupéry em O Pequeno Príncipe

 

As pessoas têm restrições para falar da morte e dificuldades para lidar com os momentos finais daquelas com quem convivemos. Certa vez, fui visitar o pai de uma amiga que estava internado em um asilo e, tão logo cheguei, no saguão de entrada, vi fotos de internos, já bem velhos, acamados e impossibilitados de se locomoverem de modo independente. Alguns visitantes, como eu, demonstravam um triste espanto. Repentinamente passou uma enfermeira e chamou a atenção de todos para o fato de que eles tinham passado pela vida e, naquele momento em que a fotografia fora tirada, estavam findando. Cumpriram o ciclo da existência. As palavras contundentes daquela mulher me foram educativas e reforçaram o que sempre soube e neguei: a morte fará parte da minha vida.

Nascimento e morte são os exatos momentos em que sofremos as maiores transmutações. Na natureza, a cada dia, vivenciamos o amanhecer e o anoitecer. Como é belo ir ao Arpoador, no Rio de janeiro, para assistir ao pôr do sol, principalmente no verão quando as pessoas chegam a bater palmas quando o sol desaparece atrás da Pedra da Gávea. Diferentemente na vida individual, o findar é doloroso, mesmo para os familiares e amigos daqueles que viveram com plenitude.

A questão da morte vai além do fato biológico e descortina a amplitude dos sentimentos inerentes à ausência, ao desaparecer de alguém com quem temos relações de afeto. O lidar com sentimentos que cercam o quarto que fica vazio, o animal que perde o dono, a mãe que nunca mais verá o filho são desoladores. Um abraço, um consolo, um olhar que acalente é sempre sustentador. Um livro também o é.

Está em minhas mãos o livro de contos da Flávia Savary, “É de morte!” Segundo a autora, “é um livro sobre a vida” em que o leitor se depara com os “desdobramentos e ecos que a morte produz nas personagens”. Os contos narram situações em que a morte é o tema central e podem ser lidos por jovens e adultos.

Uma questão me inquieta. Ao escrever este texto uma inquietante dúvida me invade: estou diante da vida ou da morte? Questão nunca resolvida e que me é desafiadora.

Eis a questão apresentada por Shakespeare: o eterno dilema do ser ou não ser ou não ser. E, aqui, ao escrever a coluna me parece a metáfora da interminável dúvida: viver ou morrer?

Pois bem, parei de escrever e fui fritar uma omelete para o jantar. Fui à cozinha tentando decidir se pararia de ser escritora e me tornaria cozinheira. Se gostaria de continuar a viver ou morrer. Com a cabeça enrolada e a vontade de comer a omelete crescendo, acho que naturalmente me transmutei de escritora a cozinheira e decidi viver. Não matei a escritora, se bem que na cabeça estivessem fumegando grandes dúvidas existenciais. A escritora mereceria descansar. E aí surgiu a cozinheira, mestre em quebrar ovos e fazer omeletes de todos as maneiras.  Renasceu a cozinheira pela decisão de jantar e saborear uma omelete recheada com frango, acompanhada de salada e suco de laranja com limão. Se a cozinheira quisesse morrer, certamente iria fazer uma fritada de ovos mexidos, mas não uma omelete gorda, bonita de se ver e comer. Como a escritora está adormecida, a palavra omelete danou a ser repetida. Ich!

Flávia Savary tem razão. Pensar na morte é tomar a consciência de que a vida é para ser vivida.

Publicidade
TAGS:

A Direção do Jornal A Voz da Serra não é solidária, não se responsabiliza e nem endossa os conceitos e opiniões emitidas por seus colunistas em seções ou artigos assinados.

O livro tem o pulsar do coração

segunda-feira, 07 de agosto de 2023

O leitor, quando mergulhado numa história, deixa seus olhos deslizarem sobre o texto, sendo capaz de perceber os personagens em seus sentimentos, palavras e ações, contextualizadas em cenas, ricas em circunstâncias a serem por ele captadas e refletidas. 

Mas como é possível, a literatura atrair a criança e o jovem, competindo com um universo de situações por eles vividas? 

O leitor, quando mergulhado numa história, deixa seus olhos deslizarem sobre o texto, sendo capaz de perceber os personagens em seus sentimentos, palavras e ações, contextualizadas em cenas, ricas em circunstâncias a serem por ele captadas e refletidas. 

Mas como é possível, a literatura atrair a criança e o jovem, competindo com um universo de situações por eles vividas? 

Muitos fatores podem ser indicados, porém a linguagem é o mais relevante e complexo. Sendo o escritor, um contador de histórias por excelência e tendo uma imaginação generosa, está diante de um grande desafio: comunicar-se com a criança e o jovem. Ao entrar em contato com sua voz narrativa, vai aprendendo a usar as palavras, construir as frases, fazer a história desencadear de modo contínuo e claro, capaz de transmitir ao leitor o seu pensamento e o seu modo de dizê-lo. Jamais escreve para si; escreve para o outro. Para o grande “Outro”. Seus textos nunca ficarão guardados em gavetas ou esquecidos na última prateleira de estantes, serão degustados e absorvidos por aqueles leitores que estão chegando a um mundo a ser descoberto, a um lugar desafiador, onde terão que viver e interagir. 

O texto literário, ao promover a comunicação entre pessoas de culturas e gerações diferentes, atravessa o tempo e percorre espaços sem perder a riqueza narrativa e constrói, com maestria, as possibilidades de conversar com o leitor sobre a história que se propõe a contar e o respectivo tema que vai abordar. 

Quem será o meu leitor, o que quero dizer a ele e como fazê-lo? São perguntas que exigem respostas responsáveis uma vez que seu texto permanecerá vivo no leitor, cujas ideias transmitidas através de palavras irão pulsar como um coração naquele que lê, quiçá por toda uma vida.      

O livro é uma casa que precisa ser aconchegante à criança e ao jovem, onde eles encontrarão no universo ficcional o que vivem na realidade. É o mundo do faz de conta que apoia a criança e o jovem em suas experiências existenciais. É como o canto do rouxinol que anuncia a primavera e propaga a longas distâncias a esperança de algo melhor. Quanto mais barulho o mundo fizer, mais alto ele cantará. 

O texto infantojuvenil não é despretensioso. Cada palavra quer tocar a pessoa do leitor, enquanto sujeito sujeitado, enquanto indivíduo único. Como ser vivo que deseja uma vida digna.

Publicidade
TAGS:

A Direção do Jornal A Voz da Serra não é solidária, não se responsabiliza e nem endossa os conceitos e opiniões emitidas por seus colunistas em seções ou artigos assinados.

Literatura infantojuvenil invade a Academia Friburguense de Letras

segunda-feira, 31 de julho de 2023

Sim, senhor!, por ser um lugar que cultiva histórias, os ares da Literatura Infantojuvenil invadem a Academia Friburguense de Letras através do Ciclo de Palestras, “Os Desafios da Literatura Infantojuvenil”. 

Sim, senhor!, por ser um lugar que cultiva histórias, os ares da Literatura Infantojuvenil invadem a Academia Friburguense de Letras através do Ciclo de Palestras, “Os Desafios da Literatura Infantojuvenil”. 

Várias ideias permearam o planejamento da atividade, que incluiu profissionais de diferentes áreas envolvidas nos processos de fazer e na utilização do livro de literatura, a começar pela sua importância na formação do leitor, enquanto pessoa e cidadão. Através do envolvimento com o enredo e o encantamento com o mundo ficcional, a criança e o jovem vão se identificando com os personagens e relacionando os fatos por eles experimentados durante a leitura com as próprias situações existenciais. Ao virarem as páginas do livro e mergulharem nas histórias, a literatura se torna uma possibilidade de o autor conversar com o leitor sobre a vida com plenitude por meio de uma comunicação baseada no respeito e nas possíveis descobertas que o leitor possa vir a fazer. Na percepção de que a leitura não materializa apenas ideias, mas poetiza a vida em todas as suas formas. 

Como vivemos num mundo complexo e mutante, o leitor infantojuvenil pode ser até comparado à Alice no País da Maravilhas que vai conhecendo e interpretando o mundo ao seu redor, algumas vezes observado através de frestas, tal qual o buraco da fechadura. Apesar de ser interagente, o leitor, seja infantil ou juvenil, ainda não consegue discernir sobre a realidade com clareza e objetividade. A leitura lhe proporciona outros modos de ver os diversos âmbitos do ambiente familiar, social, cultural, econômico e histórico, ampliando sua visão de mundo e de ser vivente em processo de evolução.

Mas como o autor tem condições de tocar seu leitor infantil? O fazer para despertar o seu interesse a ponto de criar condições para que seu texto seja lido por inteiro? Até mesmo relido. São perguntas delicadas que requerem respostas amplas sobre a linguagem. Por isso a literatura é a arte da palavra, na medida em que tem a delicadeza de empregar a expressão capaz de motivá-lo a continuar a ler, a refletir e a verbalizar o pensamento. É a arte que vai além da técnica e do bom senso. É a arte construída pelo amor à vida.

A ilustração auxilia o leitor a ultrapassar as dificuldades e a aridez inerente a todo e qualquer texto, tornando a leitura prazerosa e oferecendo outros modos de interpretar a história. Através das imagens, cores e formas, ele tem a oportunidade de visualizar os cenários, os personagens e o desenrolar da trama. Inclusive, tem como perceber as sutilezas das mensagens nas entrelinhas do texto. 

O livro, ao acolher um texto, oferece possibilidades ao contador de histórias para reproduzi-la verbalmente, utilizando os mais variados recursos criativos a fim de atrair a atenção do ouvinte, para trazê-lo ao universo da ficção e tratá-lo como o principal espectador do espetáculo que realiza.

A literatura é uma rica fonte de devaneio. Além de ser a base que sustenta outras artes, como o teatro e o cinema, possibilita o fantasiar. E a criança e o jovem precisam adentrar os bosques imaginários para ter condições de lidar com os desafios da própria existência, muitas vezes cruéis e difíceis de serem compreendidos.

O livro de literatura para crianças e jovens não contém uma historinha, muito menos é um monte de páginas enfeixadas. É uma obra comprometida com seu leitor, que conta uma história significativa e traz a inteligência criativa do autor em cada frase. É um objeto perturbador por excelência que tem força para transformar cada leitor de forma especial. 

Lendo, a criança e o jovem vão se curando da cegueira existencial e abrindo as asas para a liberdade de ser e de fazer.

Publicidade
TAGS:

A Direção do Jornal A Voz da Serra não é solidária, não se responsabiliza e nem endossa os conceitos e opiniões emitidas por seus colunistas em seções ou artigos assinados.

Nunca nos esquecemos dos nomes com sobrenomes!

segunda-feira, 24 de julho de 2023

A literatura é um bom local para guardar lembranças e torná-las vívidas. Se as palavras falam de situações fugazes, podem nos trazer o que vivemos em carruagens. O tempo passa, mas as memórias ficam. É o que vou fazer agora, vou trazer a esta coluna, através de um relato, algumas lembranças das minhas amigas de colégio, já que eram tantas que não caberiam num daqueles livros de capa dura do tamanho de almanaque. 

A literatura é um bom local para guardar lembranças e torná-las vívidas. Se as palavras falam de situações fugazes, podem nos trazer o que vivemos em carruagens. O tempo passa, mas as memórias ficam. É o que vou fazer agora, vou trazer a esta coluna, através de um relato, algumas lembranças das minhas amigas de colégio, já que eram tantas que não caberiam num daqueles livros de capa dura do tamanho de almanaque. 

Ainda escuto suas vozes nas conversas que se perdiam depois daquele portão imenso do Colégio Sacré-Coeur da Marie, na rua Tonelero, 56, Copacabana, Rio de Janeiro. As recordações rodeiam a terrível professora das aulas de História, passeiam pelas saias plissadas que tentávamos encurtar, enrolando o cós. Enfim, detalham os acontecimentos que marcaram os nove anos em que nos sentávamos nas cadeiras das salas dos cursos Primário, Admissão e Ginasial. As relações colegiais eram preenchidas e desenhadas pelos modos de ser de cada uma e nunca foram por nós esquecidas. Apesar das diferenças individuais, íamos descobrindo afinidades e interesses em comum, como os jogos de vôlei, as brincadeiras durante os recreios, as festas, principalmente quando começamos a usar sapato com dois dedos de salto alto. Até hoje, cinquenta anos depois, ainda estamos unidas e trocamos mensagens diariamente. Que bonito! 

Éramos 120 alunas, agrupadas em 4 turmas e seguíamos ano a ano a escolaridade. Aprendemos línguas, matemática e geografia, dentre outras disciplinas que compunham uma grade de ensino variada. E, acima de tudo, aprendemos a ser pessoas dignas. Sob rígida disciplina e alvo dos olhares das freiras, por vezes severos, conseguíamos ser bagunceiras. E, hoje, constatamos, em nossos encontros, que éramos felizes, apesar das agruras que aquele colégio religioso nos trouxe. A rigidez que vivenciamos não nos tirou pedaços, mas nos preparou para a vida. 

Algumas, infelizmente, já se foram, e sempre registramos a ausência delas de modo saudoso e respeitoso.  A maioria está seguindo a vida, e temos a alegria de compartilhar os momentos que vivemos no presente. Dos nomes com sobrenomes, nunca esquecemos! E na semana em que comemoramos a semana do amigo, as lembranças colegiais me transportaram para cada canto daquele imenso colégio, cheio de escadarias e ladeiras. Temos belos registros.

É mágico! Nós, com quase setenta anos, quando estamos juntas, temos a impressão de que o tempo não passou, que ainda somos meninas, com a vida pela frente, cheias de vontade de viver.

É uma amizade que vai nos puxando para perto umas das outras. É eterna enquanto cada uma de nós viver. Se, porventura, alguém tem uma dificuldade ou um sofrimento sabe que o grupo SCM está pronto para acolher, sugerir e ajudar. Confesso que não me sinto só. Tenho a riqueza de guardar amigas de colégio como diamantes.

Deixo, para finalizar, um dos mais belos poemas que conheço e tem a ver com o tema da coluna.

GUARDAR

Antônio Cícero

Guardar uma coisa não é escondê-la ou trancá-la.

Em cofre não se guarda coisa alguma.

Em cofre perde-se a coisa à vista.

Guardar uma coisa é olhá-la, fitá-la, mirá-la por

admirá-la, isto é, iluminá-la ou ser por ela iluminado.

Guardar uma coisa é vigiá-la, isto é, fazer vigília por

ela, isto é, velar por ela, isto é, estar acordado por ela,

isto é, estar por ela ou ser por ela.

Por isso melhor se guarda o voo de um pássaro

Do que um pássaro sem voos.

Por isso se escreve, por isso se diz, por isso se publica,

por isso se declara e declama um poema:

    Para guardá-lo:    

Para que ele, por sua vez, guarde o que guarda:

Guarde o que quer que guarda um poema:

Por isso o lance do poema:

Por guardar-se o que se quer guardar.

Publicidade
TAGS:

A Direção do Jornal A Voz da Serra não é solidária, não se responsabiliza e nem endossa os conceitos e opiniões emitidas por seus colunistas em seções ou artigos assinados.

Da voz feminina, nasce a escritora

segunda-feira, 17 de julho de 2023

Estou com o livro nas mãos “Um grande dia para as escritoras”, idealizado por Giovana Madalosso, sentindo o cheiro das folhas que deslizam com o movimento dos dedos, fazendo os olhos absorverem a vibrante cor rósea misturada com a coral. Deixando-me inebriar ao admirar as 53 fotos de escritoras em várias cidades do mundo, totalizando 2.302 mulheres. As fotos foram tiradas em diferentes lugares das cidades, como praças, escadarias, anfiteatros, museus, prédios históricos, além de tantos outros usados de cenário para o registro de um momento tão feminino e grandioso.

Estou com o livro nas mãos “Um grande dia para as escritoras”, idealizado por Giovana Madalosso, sentindo o cheiro das folhas que deslizam com o movimento dos dedos, fazendo os olhos absorverem a vibrante cor rósea misturada com a coral. Deixando-me inebriar ao admirar as 53 fotos de escritoras em várias cidades do mundo, totalizando 2.302 mulheres. As fotos foram tiradas em diferentes lugares das cidades, como praças, escadarias, anfiteatros, museus, prédios históricos, além de tantos outros usados de cenário para o registro de um momento tão feminino e grandioso. Aqui em Nova Friburgo, as escritoras foram cuidadosamente lideradas por Márcia Lobosco, nossa Produtora Cultural na área de literatura. Tirada por Osvaldo Enoc, a foto recebeu o acolhimento da Escadaria do Antigo Fórum, na Praça Presidente Getúlio Vargas, onde pisamos os degraus com determinação, tomadas pelo sentimento de orgulho.

Estou lendo os textos escritos pelos organizadores e autoras que participaram das fotos, curtindo a maciez do papel e absorvendo o cheiro do livro. O livro tem um perfume especial que me remete à criatividade, vitória e vozes. “Um grande dia para as escritoras” traz o som da mulher: sua fala e desejos, seu nascimento, sua morte. A mulher aprende a viajar pelos dias com resiliência, abrindo suas asas a cada passo e construindo paulatinamente a vontade de ir além. De ser mulher com inteireza, de jamais ser rasgada.

Ainda estamos aprendendo a falar, a dizer nossas palavras, únicas e universais. Somos as mais puras testemunhas do fazer da vida no ventre. Temos seios que produzem alimento nutritivo. Somos as coletivas que se precipitam sobre o papel com caneta em punho e começam a narrar a beleza que a vida faz e desfaz. Escrevemos para sentir o gozo de ver nossa voz escrita, soletrada e sublinhada.

É um júbilo me ver na escadaria do Antigo Fórum ao lado de tantas amigas. A literatura une as pessoas. As histórias tocam nossas almas e temos a vontade de sentir, uma ao lado da outra, o trajeto das palavras, de perceber a sua força e dormir ao som de suas letras. De sonhar para desejar e realizar. Se vogais ou consoantes, se maiúsculas ou minúsculas, elas agasalham os vazios do nosso próprio olhar. É tão bom descobrir o que elas preenchem, como uma peça de um quebra-cabeça que precisa ser encaixada. No meu há peças desencaixadas, misturadas e caídas no chão. Mas tenho peças coloridas, delineadas e reluzentes, já acertadas no tabuleiro.

As fotos no livro nos contagiam, nos fazem resistir à fragilidade do suposto sexo frágil. A escrita não nos deixa calar. Pelo contrário, à cada frase exalamos os perigos da sobrevivência feminina. Penso que compor um livro é mais do que chegar a algum lugar para vislumbrar horizontes. É realizar o propósito de ver uma criança correndo sobre a linha que delineia o possível  e o desejável.  

A mulher escritora não tem idade. 

A mulher nasce escritora e morre se assim o quiser.

A escritora traz a beleza de ser mulher.

Publicidade
TAGS:

A Direção do Jornal A Voz da Serra não é solidária, não se responsabiliza e nem endossa os conceitos e opiniões emitidas por seus colunistas em seções ou artigos assinados.

Saber perder o tempo e achá-lo com outras cores e formas

terça-feira, 11 de julho de 2023

Os amantes usam o tempo para sentirem o prazer de gostar de estar com o outro e, às vezes, são momentos tão agradáveis que parecem eternos. Cecília Meireles, certa vez, poetou “Eu canto porque o instante existe e aminha vida está completa.” A sensação de bem-estar nos invade com ternura, como um véu que nos faz sentir embevecimento por aquilo que estamos fazendo.

Os amantes usam o tempo para sentirem o prazer de gostar de estar com o outro e, às vezes, são momentos tão agradáveis que parecem eternos. Cecília Meireles, certa vez, poetou “Eu canto porque o instante existe e aminha vida está completa.” A sensação de bem-estar nos invade com ternura, como um véu que nos faz sentir embevecimento por aquilo que estamos fazendo. É possível que nos traga a sensação de que a vida em torno deixa de existir e o mundo de se movimentar.  O prazer é o presente que se faz presente como um presente que nos ofertamos ou que nos é oferecido com bondade e sem parcimônias. Há, por certo, uma magia que nos sopra suavidades.

Sócrates, condenado à morte por ser acusado de corromper a juventude e com poucos dias de vida, pediu a um professor que lhe ensinasse a tocar flauta. Ante o espanto do músico, ele argumentou que queria aprender o instrumento apenas para ter o prazer de tocá-lo, de dar serenidade e alegria ao seu espírito naqueles momentos finais.

Quem é amante da leitura encontra a delicada satisfação em mergulhar num texto do seu gosto, que seja um jornal, carta ou um conto despretensioso. Ler é um modo de configurar o tempo com a apreensão de ideias, utilizando a energia que emana fluida do corpo e da mente, bem diferente daquela carregada de responsabilidades e prazos, que tão bem conhecemos no dia a dia. 

Ler é um hábito de inserir a leitura nos momentos em que o olhar vagueia no céu entre as nuvens e dança com o tiquetaquear do relógio. Eu me relaxo antes de dormir lendo trechos de um livro a mim disponível na cabeceira e, mesmo cansada e pestanejando, avanço alguns trechos na história. É um momento noveleiro em que o livro acaba sendo absorvido em capítulos, além de ser um modo erudito de chamar os sonhos e as fantasias que habitam meu sono. Confesso que não é incomum sonhar com o que li. Chego até a visualizar os personagens e cenários, desejar estar entre as linhas à espera de novos acontecimentos, tomada por um suspense transitório e não comprometido com os da vida real.

A leitura prazerosa tem um jeito amistoso de nos abraçar que nos faz pausar, não deixando de ser um passaporte para relaxar as pernas e sossegar as preocupações diárias. Além de tudo, um leitor com mais idade sempre dá exemplo aos mais jovens. Inclusive a formação do hábito de ler é alimentado pelo exemplo, uma influência silenciosa e eficaz. 

Durante o tempo dedicado ao prazer, só há vantagens em compartilhar a leitura com outras atividades. E, cá para nós, perder o tempo e achá-lo com outras cores e formas não é melhor do que coçar o dedão do pé?  

 

Publicidade
TAGS:

A Direção do Jornal A Voz da Serra não é solidária, não se responsabiliza e nem endossa os conceitos e opiniões emitidas por seus colunistas em seções ou artigos assinados.

Louvor à Literatura Infantojuvenil

quarta-feira, 05 de julho de 2023

A Literatura Infantojuvenil não é, de modo algum, uma historinha para criancinhas. É um texto sério, escrito com para pessoas que estão chegando a este mundo conturbado, cheio de guerras e brincadeiras, fantasia e realidades múltiplas. 

A Literatura Infantojuvenil não é, de modo algum, uma historinha para criancinhas. É um texto sério, escrito com para pessoas que estão chegando a este mundo conturbado, cheio de guerras e brincadeiras, fantasia e realidades múltiplas. 

Vou usar minhas palavras para conceituar a literatura porque vou expressar o que sinto quando escrevo para crianças e jovens. Literatura é o fazer arte através da palavra, é resultado da produção intencional de um texto elaborado com beleza, harmonia e criatividade; é a conjugação de talentos individuais desenvolvidos por meio de esforços e técnica, direcionados à elaboração de narrativas em vários estilos, que expõem fatos, ideias, sentimentos e, até mesmo, estudos e pesquisas.

Faço questão de louvar a literatura sempre que tenho contato com a palavra expressa com maestria, delicadeza e força. Não é uma expressão desajeitada e, se assim o for, será feita com parâmetros. O texto bem elaborado debuta e faz sua estreia diante dos olhos de um leitor que o degusta frase por frase, cuja leitura vai lhe revelando ideias e despertando vontades, que vai se sensibilizando a ponto de se modificar como pessoa. Quando alguém começa a ler um livro abre as portas para o mundo de um modo; quando acaba, não precisa de maçanetas para abri-las. A literatura faz metamorfoses, enquanto resultado de experiências significativas que estimulam reflexões. A leitura é uma experiência que tem poder mágico sobre qualquer ser humano, seja criança ou adulto. 

O escritor infantojuvenil tem a intenção de tocar as crianças e os jovens que sobrevivem ao mundo e aprende a andar descalço sobre terrenos lúdicos para perceber os universos ficcionais que gostariam de conhecer, é ser capaz de sair do próprio lugar, muitas vezes confortável, e visitar brincadeiras, lugares onde o faz de conta é lei soberana. É ter a capacidade de perceber o que os olhos infantis e juvenis expressam. É nascer ao mesmo tempo em que cada criança nasce e morrer sempre que um choro sofrido de um jovem atravessa o horizonte.

Quem começa escrever um texto infantil não pode ter medo do leão que invade sua sala com fome; nem se surpreender com o voo de cavalos alados que migram para encontrar amigos do outro lado do mundo; muito menos não querer encontrar gigantes que andam pelos bosques, contando histórias e falando de lendas assustadores

É aquele sujeito, que não bem se aceita como sujeitado, que gosta de visitar os jardins encantados da ficção, conhecer o sítio mágico de Monteiro Lobato, ler o O Pequeno Príncipe, guardar miudezas na Bolsa Amarela, cantar com João e Maria, e ser um dos sete anões. 

É um escritor que compreende a importância dos heróis imaginários para aqueles que não os têm na realidade. Que sabe falar da ausência e da saudade com a elegância da garça e os cuidados do anjo, que fala dos medos porque os sente de vários modos e momentos.

Quem escreve para crianças e jovens ama as pessoas, tem esperanças e guarda com todo o respeito a criança que um dia já foi.

Publicidade
TAGS:

A Direção do Jornal A Voz da Serra não é solidária, não se responsabiliza e nem endossa os conceitos e opiniões emitidas por seus colunistas em seções ou artigos assinados.

Poderá ser Nova Friburgo considerada uma Cidade Literária?

segunda-feira, 26 de junho de 2023

Gostaria de começar a coluna afirmando que Nova Friburgo é uma Cidade Literária pelo seu potencial inspirador, natureza e história. Mesmo possuindo uma produção literária considerável, além de acolher a Academia Friburguense de Letras e a União Brasileira de Trovadores, ainda um longo caminho precisa ser percorrido para ser assim considerada. Essas cidades atraem amantes de livros, têm uma vida literária produtiva, possuem editoras, livrarias e lojas que vendem livros usados, promovem festas e feiras literárias, atraem leitores, escritores e bibliógrafos.

Gostaria de começar a coluna afirmando que Nova Friburgo é uma Cidade Literária pelo seu potencial inspirador, natureza e história. Mesmo possuindo uma produção literária considerável, além de acolher a Academia Friburguense de Letras e a União Brasileira de Trovadores, ainda um longo caminho precisa ser percorrido para ser assim considerada. Essas cidades atraem amantes de livros, têm uma vida literária produtiva, possuem editoras, livrarias e lojas que vendem livros usados, promovem festas e feiras literárias, atraem leitores, escritores e bibliógrafos.

As Cidades Literárias possuem selos de qualidade da UNESCO e estão espalhadas mundo afora por destacarem a literatura como ponto estratégico do seu desenvolvimento cultural, social e econômico. Realizam projetos literários inovadores de produção e intercâmbio entre escritores. Podemos citar Óbidos (Portugal), Edimburgo (Escócia), Milão (Itália) Slemani (Iraque), Quebec (Canadá), Montevidéu (Uruguai), Melbourne (Austrália), Dublin (Irlanda), dentre outras em todos os continentes. No Brasil, há centros de produção e difusão da literatura, como Paraty e Porto Alegre, porém ainda não conquistaram o selo.  

Em princípio, toda a cidade tem potencial para ser literária uma vez que a literatura é o meio pelo qual os escritores, através de diferentes estilos, expressam suas emoções e expectativas, eternizam a cultura e a história do lugar, recordam o passado e vislumbram o futuro. É a arte da palavra que vai brotando com o viver, através de um diálogo intenso e profundo entre alguém que escreve com alguém que lê. O escritor faz-se presente através das suas palavras, mostrando seu modo de pensar e sentir em todo tempo e lugar; tem imortalidade.

Uma Cidade Literária, ao preservar o acervo de livros, tem cuidados especiais com os escritores que sobre seu solo passaram ou viveram, além de apoiar a produção dos atuais. Nova Friburgo tem tradição de acolher artistas da palavra como Machado de Assis, J.G. de Araújo Jorge, Casimiro de Abreu. No entanto, hoje precisa oferecer subsídios aos atuais, através da implementação de medidas políticas e econômicas a fim de apoiar os criadores de obras literárias e a criação de uma nova literatura, posto que necessitam de recursos materiais para evoluir como artistas da palavra e construir obras de qualidade. 

São Cidades que ampliam a relação entre a população com livros, atividades e outros formatos de ações literárias. Constantemente abrem possibilidades para o turismo cultural dado que a literatura também atrai a produção de atividades artísticas afins.   

Além do mais, realizam atividades que fomentam a leitura e a formação de leitores. Não resta dúvida que as escolas que investem em suas bibliotecas e atividades multivariadas de leitura possuem papel fundamental para o desenvolvimento do hábito e do gosto de ler. Entretanto a escola precisa do respaldo de atividades literárias realizadas na comunidade, como feiras, saraus, concursos e festivais literários para atingir seus objetivos.

Para finalizar, aqui deixo mais uma semente para corroborar com a escolha da população pela construção da Biblioteca Internacional Machado de Assis (BIMA) no espaço vazio da Praça do Suspiro. 

Publicidade
TAGS:

A Direção do Jornal A Voz da Serra não é solidária, não se responsabiliza e nem endossa os conceitos e opiniões emitidas por seus colunistas em seções ou artigos assinados.

Literatura, música e religiosidade

segunda-feira, 19 de junho de 2023

Há dias que começam com o espetáculo divino e outros que iniciam como todos, mesmo que acordemos com uma proposta do fazer diário diferente! 

Hoje, ao amanhecer, a Ave-Maria de Franz Schubert invadiu minha casa, meu dia. Minha vida. Senti-me enlevada, como se absorvesse a energia da música e da oração. Foi um sentimento oceânico que me trouxe paz, fazendo-me perceber a eternidade e a totalidade de vida. 

Há dias que começam com o espetáculo divino e outros que iniciam como todos, mesmo que acordemos com uma proposta do fazer diário diferente! 

Hoje, ao amanhecer, a Ave-Maria de Franz Schubert invadiu minha casa, meu dia. Minha vida. Senti-me enlevada, como se absorvesse a energia da música e da oração. Foi um sentimento oceânico que me trouxe paz, fazendo-me perceber a eternidade e a totalidade de vida. 

Quisera eu ter acordado todos os dias embevecida pela força da espiritualidade, presente na minha alma, mas oculta nas tarefas cotidianas. Se eu tivesse acordado sempre assim teria vivenciado meus dias com maior intensidade e coragem para desbastar as dificuldades, inclusive as que eu mesma criei, possivelmente por não ter aberto meu ser para Maria, a divindade feminina, intuitiva, sábia e sensível. A música de Schubert me faz emergir esse potencial que fica adormecido, porém com disposição para despertar e agir. 

Salve Maria! 

Nosso mestre poeta, Fernando Pessoa, na mais imensa e pura simplicidade, reescreveu a Ave-Maria, deixando transparecer em seus versos a grandeza da oração, enquanto força que alicerça a capacidade para vencer a inércia, dando-nos inteligência, disposição e movimento.

 

À minha mãe

Bendita sois vós, Maria,

Entre as mulheres da terra

E voss’alma só encerra

Doce imagem d’alegria.

 

Mais radiante do que a luz

E bendito, oh Santa Mãe

É o fruto que provém

Do vosso ventre, Jesus!

 

Ditosa Santa Maria,

Vós que sois a mãe de Deus

E que morais lá nos céus

Orai por nós cada dia.

Publicidade
TAGS:

A Direção do Jornal A Voz da Serra não é solidária, não se responsabiliza e nem endossa os conceitos e opiniões emitidas por seus colunistas em seções ou artigos assinados.