02/07/2012
O Globo, de 9 de abril, publicou reportagem mostrando o desinteresse de profissionais da medicina em aceitar empregos em cidades do interior do Brasil. Mesmo com salários atraentes, muito acima da média, os municípios não conseguem prover seus quadros com esses profissionais. Assunto de difícil solução, envolvendo aspectos sociais e técnicos, devendo merecer profundos estudos, para que medidas erradas não sejam adotadas, agravando ainda mais o problema.
Uma solução apresentada pelo Conselho Federal de Medicina seria a da obrigatoriedade de o recém-formado prestar estágio nesses municípios, como acontece com militares e membros da Justiça, medida que, a princípio, parece viável, mas que, a meu ver, violenta o direito do livre arbítrio, aliado a outros fatores que jogam por terra a intenção de dotar esses municípios carentes de médicos, para o atendimento da população.
A atual recusa em aceitar a oferta de emprego já reflete a primeira reação dos médicos, pois muitos deles não trocariam os confortos da metrópole pela vida pacata e vazia, social e intelectualmente, de muitas dessas cidades.
As próprias famílias, talvez, sejam as que farão a maior pressão, contrárias à troca! O jornal O Globo, do dia 2 de maio, mostra um vídeo em que o prefeito de São Felix do Tocantins reconhece as deficiências de sua cidade para fixar esses profissionais e o único médico que lá atua declara que não há laboratório para confirmar o seu diagnóstico clínico.
Com relação à falta de estrutura de muitas cidades, conheço dois amigos que, iludidos, trocaram suas cidades de origem, as duas de médio porte, para morar em cidades no interior do Brasil. Em pouco tempo de residência, naquelas cidades, eles perceberam o tremendo erro cometido, pois os locais das suas novas moradas não proviam suas mínimas necessidades de conforto e sociabilidade, ocasionando situações de depressão e de arrependimento. Felizmente, eles não se vincularam à região e puderam voltar—para onde nunca deveriam ter saído, declararam!
Este cronista nasceu e foi criado no Rio de Janeiro. Mudei residência para Cabo Frio, que é uma excelente cidade, sob todos os aspectos, entretanto, por motivos familiares, fui obrigado e deixar Cabo Frio e mudei para outra cidade, de costumes bastante interioranos. Lá, por todo o período de residência, eu e minha companheira preenchemos “vazios com vácuo”. O nível cultural de muitos interlocutores dificultava uma melhor sociabilidade. Dessa vez, nós é que ficamos depressivos, pois não tínhamos alternativas, culturais, sociais ou de conforto, tendo que nos deslocar para outros municípios para suprir carências. Mudamos de cidade e a paz voltou a reinar em nossas almas. Portanto, obrigar os novos médicos a prestarem serviços em cidades do interior que tenham um perfil como os citados acima, poderá ocasionar, também, depressões semelhantes às nossas, as quais, certamente, afetarão os seus desempenhos profissionais. Alie-se a isso, a possibilidade de haver inadaptações familiares, pois o outro cônjuge ou os filhos, apenas acompanhantes, poderão aumentar a carga de pressão, agravando o que já está ruim. Conheço um exemplo, cujo inadaptado foi um menino de 10 anos, que pediu ao pai para voltar, dizendo: “Papai eu quero voltar, pois nesta cidade eu perdi um ano de minha vida”. Razão hilária, porém, mostrando uma realidade, indiscutível!
Aspecto que considero também muito grave será a carência de ensinamentos provindos de profissionais mais antigos, sobre os segredos da profissão, pois sendo recém-formados a transferência de conhecimentos técnicos promovidas por médicos mais experientes é de capital importância para a capacitação plena do doutorando. Testemunhei esse aspecto quando fiz fotografias tecnomédicas em diversos hospitais do Rio de Janeiro e na Escola de Medicina, ocasião em que o professor da matéria, na época, o catedrático, via-se cercado de recém-formados, estagiários, ávidos de aprender mais. Pergunto: como será feito esse tipo de aprendizado nessas cidades? Essa troca de opiniões sobre tratamentos e resultados obtidos é efetivada em afamados hospitais, pois no fim do dia de plantão a equipe e o chefe se reúnem e analisam cada caso atendido.
Os três anos subsequentes à formatura são os mais importantes para a sedimentação do que foi aprendido na universidade e só após esse período é que se pode afirmar que o aluno está, a rigor, capacitado a enfrentar situações complexas no atendimento e tratamento dos pacientes. Há exceções! Ressalte-se, que para o profissional da medicina, um erro cometido, pode ser fatal para o paciente. Tranquilidade, sob todos os aspectos, é fundamental, pois a vida humana está em jogo!
Salário, nesses casos é o último item a ser considerado, pois não há dinheiro que pague a tranquilidade, para que se possa dedicar, com amor, ao que se faz!
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