02/07/2012
Na edição de 28 de abril de A Voz da Serra, o articulista Carlos Emerson Junior, registrou, com muita lucidez, sua opinião a respeito do projeto de construção da denominada Estrada do Contorno de Nova Friburgo, com início no bairro de Mury, extensão de 42 km, chegando ao trevo do município de Duas Barras. Numa primeira reflexão, a intenção de construir é ótima, pois tem a finalidade de aliviar o intenso tráfego de enormes caminhões pelas ruas e avenidas de Nova Friburgo e, com isso, diminuir os frequentes engarrafamentos de trânsito nas ruas da cidade. Entretanto, há muito tenho observado que, no geral, não são essas carretas as únicas vilãs dos problemas de circulação de veículos nas ruas, pois Nova Friburgo está enfrentando engarrafamentos constantes, independentemente da presença desses caminhões de transporte de cargas. A meu ver, o verdadeiro vilão da história é o sempre crescente número de automóveis que circulam, diariamente, na cidade, provando-se isso pela dificuldade de estacioná-los, pois vagas são raras, no Centro e nos bairros. Nova Friburgo tem esse problema porque foi afetada pelo progresso e, apesar das tragédias passadas, continua sendo polo centralizador de negócios e, para quem procura uma boa qualidade de vida, ela é hors-concours neste aspecto. Enfim, chegam visitantes, chegam novos moradores, chegam carros!
Numa segunda reflexão, a construção de qualquer estrada trás o progresso, porém, carrega junto a inexorável depredação, tanto da ecologia como também da estrutura urbana. Carlos Emerson está com toda a razão ao levantar a premissa de que a implantação daquela rodovia deve ser precedido por estudos técnicos rigorosos, complementados com debates públicos, para analisar, nos mínimos detalhes, os impactos negativos, principalmente ambientais, que possam gerar.
A construção de uma estrada provoca o crescimento da área urbana de qualquer município. Um exemplo disso foi a construção, na década de 50, da estrada Rio-São Paulo—Presidente Dutra. A cidade de Pindamonhangaba distava dela 15 km e nos dias atuais aquela rodovia atravessa a cidade. A cidade de Campinas, SP, também, encostou e atravessou a estrada Pedro I.
No caso da nossa Rodovia do Contorno, por se situar em área montanhosa e de floresta, creio que a ocupação das áreas próximas dela será mais lenta, porém acontecerá, inicialmente, por famílias dos “sem residência”, ocasionando desmatamentos da nossa rica Mata Atlântica, até mesmo para abrir espaço para lavouras de subsistência familiar. Além dos efeitos danosos referentes aos desmatamentos, também os rios e nascentes serão procurados, de forma desordenada, para suprir de água as casas desses pioneiros. Perigoso será se os “sem terra” da região também invadirem! Agrava-se o fato, pois fiscalização no Brasil só funciona quando pressionada pela imprensa e só então os governantes “fingem” tomar providências, porém tardias, quando a dilapidação do patrimônio vegetal e hídrico nos vários quilômetros de estrada já será uma realidade irreversível!
Em data recente, ouvi pronunciamentos de envolvidos com a efetivação do projeto fazendo críticas a cidadãos friburguenses por se declararem contra o projeto ou por fazerem restrições à forma pela qual o mesmo está sendo encaminhado. Permito-me ponderar que isso é direito do contribuinte, cabendo aos responsáveis pelo projeto a obrigação de formalizar uma Audiência Pública, aliás, ansiosamente esperada por Carlos Emerson, para esclarecer, de forma minuciosa, todas as facetas do referido empreendimento. Nessa reunião, deve ser franqueada a palavra a todos, pois alguns deles poderão dar solução ou levantar objeções, referentes a aspectos ainda não avaliados.
Registro, por oportuno, que esse salutar procedimento eu adotei quando fui produtor rural, pois em numerosas vezes, reunido com meus funcionários, ao apresentar o projeto de plantio de alguma lavoura, um dos participantes apresentava uma ideia que melhorava muito a execução da tarefa. Frise-se, que o nível intelectual dos referidos lavradores não era dos mais brilhantes, porém, eles eram detentores de uma qualidade, ou seja, eles conheciam melhor a área em que iam trabalhar!
A meu ver, outro problema que envolve a construção dessa estrada e que deve ser bem analisado é o do reflexo negativo sobre o comércio da cidade, pois uma parte considerável de veículos de outros municípios deixará de circular pelo centro comercial de Nova Friburgo, ocasionando queda nas vendas das lojas e dos serviços. Essa afirmativa não é utópica, pois isso ocorreu em várias cidades, inclusive em Cachoeiras de Macacu, onde a passagem pela cidade se faz pelo viaduto ali existente e o comércio central deixa de receber a visita desses viajantes, pois só no Posto Santa Mônica os veículos param. Talvez, só o comércio existente entre Theodoro e Mury não seja afetado. Enfim, avaliar bem o projeto, para que a Rodovia do Contorno não vire Transtorno!
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