06/04/2012
1. A QUEDA
Uma das cenas mais “marcantes” do teatro friburguense na década de 70 aconteceu num dos festivais amadores em que todo mundo queria marcar “presença”, já que isso fazia muito sucesso com as meninas dos colégios Mercês e das Dores e, caso não desse certo com elas, rendia pelo menos uns amassos no Xadrezinho ou na SEF com “atrizes desgarradas”. Como já faltava dinheiro para investir na cultura, na época (igualzinho a hoje!), os vários grupos ensaiavam no Centro de Artes, em revezamento, sem cenário, sem iluminação, sem nada, o que criava problemas em peças dramáticas, que acabavam quase virando pornochanchadas para ninguém botar defeito. Pois a cena que relataremos, por incrível que pareça, é parte do enredo de um drama.
Nos ensaios, sem cenários, um coadjuvante entrava por uma porta imaginária (que não havia sido construída ainda) empurrando uma cadeira de rodas com o ator principal, nesta encenação, no papel de um tetraplégico. No dia da estreia, Centro de Artes cheio, os carpinteiros da Prefeitura acabaram de montar o cenário em cima da hora. Ocorreu que não mediram a largura da cadeira de rodas com relação à porta de entrada do cenário... E o que aconteceu? O raio da cadeira não entrava em cena de jeito nenhum! Engastalhou na porta, mais estreita do que ela. E foi um tal de empurra daqui, empurra dali, com o cenário balançando como se estivesse numa tempestade. Até que, com a ajuda de um providencial pontapé, a cadeira finalmente passou pela porta, e seguiu uma carreira só derrubando uma parede de eucatex; e, no embalo do empurrão, bateu na ribalta, capotou e jogou o ator em cima da primeira fila da plateia.
Depois daquele ohhhh! causado pelo impacto tão realista da cena (e dos uis e ais do ator e dos ocupantes da primeira fila), fez-se um silêncio sepulcral... No palco, a turma segurava o restante do cenário que ameaçava desabar. Na plateia o ator “tetraplégico” gemia de dor e, miraculosamente, se arrastava pela escadinha lateral, para assumir o papel novamente com toda a dignidade, já imaginando que ia ganhar o troféu de Melhor Ator. Além de não ganhar, escutou a maior gargalhada coletiva que um drama já obteve em toda a história milenar do Teatro.
2. ESTReIA DO GAMA
O Gama (Grupo de Arte, Movimento e Ação) foi criado em 1966. A primeira apresentação do grupo, dirigido por Jaburu, foi um show de poemas e músicas de Chico, Milton, Vinícius entre outros. Tinha também, é claro, poemas e músicas de friburguenses. Faziam parte do elenco de “Faz escuro, mas eu canto”: Augusto Muros, Célia, Lívia e Márcia (filhas de Fausto e Pierina do Banco do Brasil), Cláudia Salomão (filha de Alba, da sapataria do mesmo sobrenome), Marins, Paulo Carvalho, Hugo Fontoura e mais um monte de gente que começava ali a conhecer o prazer de fazer teatro. Tudo corria muito bem, com as meninas muito afinadas, fazendo o maior sucesso. Mas, quando os compositores friburguenses foram apresentar suas canções, sentados na ribalta do Centro de Artes, bem perto da primeira fila da plateia, um espectador da fila do “gargarejo”, pra lá de bêbado, cismou com a cara de um deles e comentou, em voz alta e enrolada: “Mas que moleque feio, esse aí!”. E a todo momento repetia a frase e ria. O teatro inteiro, é claro, caiu na gargalhada e o artista, que realmente não era lá essas coisas no quesito beleza, manteve a pose até o fim, de cara ainda mais feia, pois o “show tinha que continuar”...
3. ZOOLÓGICO EM SÃO GONÇALO
O Gama, depois do sucesso de “A História do Zoológico”, no Festival de Niterói, foi contratado pelo prefeito Joaquim Lavoura para fazer uma apresentação em São Gonçalo, na década de 70. No elenco do difícil drama americano, o saudoso Augusto Muros e Paulo Carvalho. Ao chegar a São Gonçalo, foram informados de que a apresentação seria num ginásio de esportes, com entrada franca, em comemoração ao aniversário da cidade. Ao saberem disso, os atores e Jaburu ficaram pra lá de preocupados. Estava na cara que ia dar zebra.
Já pensou fazer um drama, com apenas dois atores, em São Gonçalo, num ginásio esportivo, com entrada franca? Não ia dar certo mesmo! Ao começar a peça, com mais de duas mil pessoas no ginásio, deu para sentir que a coisa ia ficar mesmo dramática. Antes mesmo que os atores completarem o primeiro diálogo, ouviram um grito: “Fala mais alto, seu filho da p#@&*ta!”. Daí pra frente só piorou. Vaias, gritos e gargalhadas. Muros, com aquele jeito de lorde macaense, nem esquentava, ia tocando em frente como se nada acontecesse. Mas, Paulo, ao contrário, estava querendo chutar o pau da barraca. Numa cena em que ele é “esfaqueado” por Muros, em vez de deixar a faca cair no palco, como tinham ensaiado sempre, “pê” dentro das calças, mandou a faca em cima da plateia... Pois a danada foi cair, caprichosamente, aos pés de Joaquim Lavoura que, de chapelão, feito um coronel de Jorge Amado, não devia estar gostando nada da escolha que fez para comemorar o aniversário de São Gonçalo. Depois desse “incidente”, até o Muros concordou com a sugestão do Paulo e encurtaram meia hora da peça para sair de fininho, antes que o pior acontecesse. E assim foi feito, debaixo de muitas vaias. Ah, menos mal: o Gama recebeu direitinho o cachê combinado.
Outras Colunas