06/04/2012
Os Causos abrem alas para o jornalista Girlan Guilland
Muitos de nossos leitores nos procuram para contar histórias divertidas da vida friburguense. Alguns deles prometeram transformá-las em Causos para serem aqui publicadas. Girlan foi o primeiro a cumprir a promessa.
Deleitem-se pois nos próximos sábados com as histórias do pequeno-grande Girlan.
Hoje, uma pequena amostra do que vem por aí.
1. PAGAMENTO DE PROMESSA A “SÃO LÚCIO”
Em recente viagem de ônibus, deparei-me com a oportunidade de “pagar promessa” ao Lúcio Flavo (não que ele seja algum santo... E ainda: existe São Lúcio? Nós friburguenses, bem conhecemos a Santa Lúcia...).
Com tempo até chegar a um compromisso no centro do Rio, e como geralmente não consigo dormir nestes deslocamentos, saquei o notebook da bolsa, e listei os causos que seriam, evidentemente, contáveis. Em apenas parte do trajeto, lembrei de umas 30 potenciais histórias, boa parte das quais, após uma primeira seleção, repasso à coluna “Causos friburguenses”, como minha contribuição à preservação de uma parte da memória de Nova Friburgo que também não pode ficar esquecida.
Afinal, em 30 anos, que se completam em outubro próximo, de atuação na imprensa local, vi, vivi, testemunhei e continuo vendo, vários episódios que merecem ser registrados. Vai aí parte desta contribuição, evidentemente com a licença de Monsieur Lúcio.
2. COMENDA BELGA
Com seu jeitão de semblante firme e sempre pouco afeito a sorrisos (frouxos), impressão que, com o passar do tempo de convivência era facilmente suplantada, o engenheiro Raphael Luiz Siqueira Jaccoud (falava para poucos, mas fazia questão do nome assim completo) chegava a assustar os menos avisados à primeira impressão de seu contato. Por trás de sua fisionomia fechada, ante a importância e imponência do cargo de Secretário Geral de Governo, escondia-se um cidadão sarcástico, irreverente e brincalhão, contador de piadas. Só quem privou de sua amizade, comprovava.
O intercâmbio Nova Friburgo e Bélgica, por obra e graça de Charles Von Romberg, que resultou inicialmente na implantação do Instituto Bélgica-Nova Friburgo e, posteriormente, na Escola Familiar Agrícola Rei Alberto I, em Baixada de Salinas, estava a todo vapor. O príncipe da Bélgica veio, pessoalmente, entregar ao prefeito Heródoto Bento de Mello uma medalha da Ordem do mérito daquele pequeno País europeu. Tal distinção mereceu solenidade no Gabinete, com direito a convidados especiais, cerimonial e protocolo, com todas as reverências possíveis. O folguedo já terminava. A um canto do salão, doutor Raphael (como me acostumei referir-se a ele) bate no meu ombro com um sorriso largo por baixo do vasto bigode e, a certa distância do amigo e prefeito, me diz:
— Girlanzinho... Olha só a cara de felicidade de Heródoto!!! Tá todo bobo com aquele medalhão pendurado no pescoço. Mal sabe ele que, na exposição de Cordeiro, qualquer vaquinha leiteira tem uma igualzinha...
Tive que sair correndo do ambiente, direto para o banheiro contíguo para não explodir em gargalhadas ali diante de toda a Corte reunida.
3. MARCIANO E O GRAVADOR
De saudosa memória, o radialista Marciano Assumpção (não confundir com o vascaíno Walther Thieller, apelidado de Marciano) já era bem idoso. Carismático, caminhar tranquilo, fala mansa, sereno e sempre sorridente.
Na época em que o engenheiro Heródoto fora deputado estadual (1978/1982), ele redigia e apresentava o “Jornal do Povo”, jornalístico de rádio que, mais tarde, passou a coordenar quando Heródoto assumiu seu segundo mandato de Prefeito (1983-1988). Era apresentado diariamente na então Rádio Friburgo (hoje Nova Friburgo AM).
Como chefe da divisão de redação, do então recém-criado Departamento de Comunicação Social, sugeri a compra de três aparelhos de gravadores, daqueles pequenos, com microfitas cassete (à época novidade e hoje substituídos pelos mp3, mp4 e mp5 etc).
A intenção era que um ficasse com o próprio prefeito para, em suas viagens, gravar assuntos a serem repassados à equipe como pautas; outro ficaria com a redação e o terceiro com o Marciano. Mesmo com todas as especificações necessárias, burocracia pra lá e pra cá, o departamento de compras, ao invés dos três aparelhos, adquiriu apenas um e, mesmo assim, daqueles que o índio-deputado Juruna carregava como ícone de seu mandato.
O velho e bom Marciano, contente da vida com a nova geringonça, subiu ao Gabinete para “inaugurá-la” numa gravação com o prefeito. E eu possesso, porque a compra inviabilizara meus planos, pois se esgotara a verba e teria que esperar alguns meses para nova encomenda dos gravadores pretendidos.
Não demorou muito, um assustado Marciano voltou sem entrevista. Quase morri de rir, quando o próprio me contou que o prefeito rejeitou gravar e ainda ameaçou jogar o gravador pela janela, tendo que ser contido pelo próprio veterano repórter, diante da janela fechada. Heródoto havia aprovado a ideia e já vinha cobrando o aparelho, pois o aproveitaria também para gravar lembretes para os demais secretários. E claro, se recusaria a carregar aquele trambolho.
Não me esquecerei jamais minha reação ao dizer ao Marciano, que não teria perdido a oportunidade: abriria a janela para facilitar ou, então, o incentivaria a arremessá-lo pelo vidro mesmo!
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