31/07/2011
1. INICIAIS DO LENÇO
Esta não é do meu tempo, mas é uma das mais lembradas e contadas em Nova Friburgo.
É um verdadeiro clássico.
Nas proximidades da hoje sede da Prefeitura Municipal, um músico amador daqueles que aparecem nas noites, tinha uma espécie de clube de dança: “O Grito da Mocidade”. Seria, mal comparando, uma gafieira adaptada para a Nova Friburgo de então. Um ambiente que, pelos estatutos, exigia respeito, que nem a música consagrada de Billy Branco.
Otávio, o músico e dono da casa, numa noite antes de reiniciar a música, anunciou pelo microfone:
— Encontra-se aqui comigo um objeto encontrado no salão e pedimos a sua dona que venha ao palco buscá-lo. É um lenço de seda, todo bordado e que contém as iniciais “O. O.”.
Uma dama imediatamente reconheceu a peça e se apresentou ao Otávio que perguntou:
— O lenço é da senhorita?
— Sim.
— E qual o seu nome?
— Orora Obuquerque — finalizou a dona do lenço.
Levou o lenço, claro.
2. MANOEL SCHERLOCK
Apesar de ter sido um sucesso, o Carnaval do Country daquele ano havia sido marcado por uma briga na última noite da folia, confusão esta que começou nos corredores do salão e acabou na secretaria do Clube. Isto aconteceu lá nos anos 60; os bailes do Country ainda eram realizados num salão improvisado atrás do Casarão do Barão.
Na reabertura do clube, constatou-se o roubo de um aparelho telefônico que ficava na mesa do administrador. E telefone naquela época era daqueles pretões, enormes e pesadões, que hoje só se vê em filmes antigos ou em museus de telefonia. Na reunião de diretoria, foi comunicado o fato e tratou-se a seguir das providências que seriam tomadas a fim de tentar reaver o telefone. Em meio à discussão, um diretor cuja origem é denunciada pelo título deste causo, deu a brilhante sugestão:
— Oh Pá! É fácil descobrirmos o ladrão, basta ligar para o número do clube que ele vai atendeire!!!
3. AÉREAS
Duas histórias com políticos locais acontecidas a bordo de aeronaves
Pio de Azevedo, que foi vereador e exerceu cargos na Prefeitura, era conhecido por sua perícia e conhecimento de motores. Descobria o defeito “de ouvido”. Apontava a solução, na maioria das vezes, só ao escutar um motor em funcionamento.
Conta-se que numa viagem com o prefeito friburguense à Brasília, Pio logo após os motores do avião serem ligados, comunicou ao seu chefe:
— A rebimboca da parafuseta do motor do lado esquerdo do avião está com defeito. É só apertar a cruzeta e o virabrequinho que o motor vai voltar a funcionar sem problemas.
É evidente que os defeitos enumerados pelo Pio não eram estes. Minha total ignorância mecânica é quem criou-los (ou seria “afrodescendentes?!).
Pelo sim, pelo não, contam as testemunhas desta história, o prefeito chamou o comissário de bordo que por sua vez passou o fato ao comandante do avião. O mecânico chefe da companhia aérea foi contatado e, numa ligeira inspeção, teria constatado que realmente a turbina estava avariada.
Nada que causasse a queda do avião, mas que teria que ser reparado tão logo o aparelho pousasse em Brasília.
..oo..
Um vereador que presidiu a Câmara de Nova Friburgo assumiu com seus companheiros durante a campanha para o cargo que, nos seus dois anos de presidência, todos eles iriam participar dos congressos que pipocavam por este Brasil afora. Pelo menos, ao final de sua gestão, uma viagem de avião estava garantida. Promessa feita, promessa cumprida.
Os dezenove vereadores cruzaram os céus brasileiros nas mais diferentes direções. Dentre eles, pelo menos, dois eram de natureza simples, um do campo e outro vindo de comunidades carentes do município.
Para evitar problemas e vexames, uma ligeira aula sobre aviões e comportamento foi dada aos dois.
No primeiro e último voo da dupla tudo transcorreu bem, o medo de voar foi logo vencido estrategicamente ajudado por algumas doses de bebida.
Teria sido perfeito não fosse o pequeno deslize cometido por um deles.
Ao aprender a chamar a aeromoça naqueles botões que ficam sobre os assentos, esperou que seus colegas dormissem e vitorioso levou a mão até o mágico botão e esperou ser atendido.
Foi ainda no tempo que aeromoça era sinônimo de mulherão, e ele ao ser indagado pela gentil atendente fez a fatídica pergunta que ecoou pelos corredores do avião:
— Moça, onde fica a casinha?
4. NOTA DE CEM
(Primeiro Ato)
No lançamento da nova moeda brasileira, o Real foi apresentado na mídia por todas as formas e maneiras possíveis. Na televisão, em jornais e revistas massificou-se as mensagens mostrando as cédulas e as moedas do novo dinheiro que viria a se firmar na economia brasileira como o divisor das águas.
Nas grandes revistas, as cédulas foram reproduzidas em seu tamanho normal e disto alguns espertalhões se aproveitaram.
Numa manhã de domingo com muito sol, a piscina da Sociedade Esportiva Friburguense estava lotada. O movimento no bar era intenso e na época era arrendado por João Evangelista cujo irmão, João Luiz, era seu braço direito. A molecada da SEF — hoje pais de famílias e (quase) sérios — aprontou. Recortaram de uma revista, a nota de cem reais e a dobraram de maneira tal que no tumulto em que estava o balcão do bar, alguém ia pegar o dinheiro sem notar que era a cédula era falsa. E aconteceu mesmo, a vítima foi o João Luiz que recebeu os cem reais para pagar as brahmas que a turma havia tomado e deu um troco substancial. No final do expediente, ao conferir a féria do dia, Evangelista encontrou a falsa nota de cem e passou uma bronca geral. Sem se lembrar de quem teria lhe dado a rasteira, João Luiz assumiu a culpa e mandou que fosse descontado do seu salário o prejuízo do irmão.
(Segundo Ato)
Pê da vida com o irmão, Evangelista, como castigo, o deslocou para trabalhar no restaurante da SEF no final de semana seguinte. E foi no restaurante que Dálgio Carestiato, saudoso companheiro do Bolão e da gráfica, acabara de almoçar com a família e pediu a conta justamente ao João Luiz que o servira. Para azar do garçom, Dalginho pagou a conta com uma nota de cem e a entregou dobrada da mesma maneira que os moleques tinham feito no domingo anterior.
João Luiz quando recebeu a nota de cem não se conteve e falou:
— Admiro o senhor, seu Dalginho, um homem sério, fazer isto comigo!
Pegou a nota de cem (verdadeira) e a rasgou em pedacinhos, na frente do Dálgio, que não entendeu nada.
Naquele mês, João Luiz não recebeu o salário do mês inteiro...
5. BOATO BOOMERANG
Alírio Nader, outro que nos deixou, foi um tremendo gozador. Bastante conhecido por toda a sociedade friburguense, foi secretário de Fazenda da Prefeitura Municipal, além das atividades que desempenhou na vida profissional. Por ter um xará, com o sobrenome Bon, os amigos diziam que ele era o “Alírio Mau”.
Adorava uma brincadeira e nas mesas do saudoso Galeria Bar era um dos mais frequentes interlocutores, principalmente de políticos. De tanto ouvir e participar dos boatos, desenvolveu uma técnica de medir a importância de uma fofoca. Trabalhava ele num escritório da Rua Ernesto Brasílio e sua mesa de trabalho estava sempre cheia de amigos. Foi aí que ele inventou a fofoca-boomerang.
Explico: ele passava uma fofoca que ouvira ou inventara para o primeiro que entrasse em seu escritório. Marcava dia e hora e esperava o boato lhe ser contado de volta. Segundo ele, os boatos envolvendo política eram os que mais demoravam a retornar. Os que falavam em dinheiro eram mais rápidos. E o boato que voltava com mais rapidez era o de natureza conjugal.
— Se você colocar chifre num marido então a fofoca volta em menos de meia hora — dizia Alírio, abrindo aquela sorriso sarcástico que lhe era característico.
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