31/07/2011
1. ECOS DA FOLIA
Carnaval, tempo de alegria, muitas recordações de uma Nova Friburgo romântica. Os bailes do Clube de Xadrez, muito antes da criação do Country Clube, eram um dos pontos altos dos quatro dias de folia. Os salões do Xadrez ficavam superlotados, muita gente de fora ajudava a tornar os bailes um dos grandes programas da cidade. Dois foliões, sempre vestidos de mulher, chamavam a atenção: Renato Machado e José Aucar. Muito bem maquiados e elegantemente vestidos de mulher, claro, formavam uma dupla famosa também pelas inevitáveis brigas que quase sempre fechavam as noites.
Costume, na época, além de confetes e serpentinas, eram o lança-perfume e o talco. Isto mesmo: não se sabe bem por que, jogava-se talco nas pessoas. A autoria do crime que vou narrar nunca foi descoberta, mas alguém teve uma ideia que quase acabou com o baile do Xadrez. Com a devida antecedência, separaram uma enorme bosta de vaca e cuidadosamente deixaram-na exposta ao sol, até secar por completo. Transformaram o cocô da vaca em algo muito parecido com talco.
No auge da animação da noite de terça-feira do carnaval daquele ano, foram para o jirau que circunda a parte de cima do salão do Xadrez e lá começaram a despejar o que para todos era talco, mas, na verdade, era a grande invenção da turma. Em contato com o suor dos foliões, rapidamente o estranho talco começou a exalar o odor de sua origem. O baile, dizem, chegou a ser suspenso por alguns minutos devido ao forte cheiro de merda de vaca que imperava no salão.
2. O BLOCO DOS BICHOS
Uma atração a mais, paralela aos desfiles das escolas de samba e ranchos, era a passagem do Bloco dos Bichos. Sob a batuta do Dimas, um crioulo não muitas vezes comportado, desciam do Cordoeira bois, cavalos, zebras, urubus e algumas outras espécimes do mundo animal. As fantasias eram bem simples, num artesanato rudimentar, mas, de qualquer maneira, fazia a alegria principalmente das crianças. A Prefeitura ajudava os blocos dando uma pequena subvenção, que era devidamente consumida, ou melhor, ingerida, pelos bichos comandados pelo Dimas durante o que se poderia chamar de “concentração”.
Mas o carnaval daquele ano não foi igual ao que passou. Em plena avenida, durante o desfile, justamente o urubu deu uma parada estratégica (é inevitável para ele, urubu). Acometido de uma tremenda dor de barriga, não resistiu: agachou-se e no meio da pista do desfile deixou um enorme, digamos, número dois.
Bem que o Dimas tentou entender que a abaixada do Urubu tinha sido mesmo inevitável, mas o que ele nunca perdoou foi o fato de ter acontecido logo em frente ao palanque das autoridades, bem à vista do prefeito da época.
3. DIRCURSO EMPOLADO
Numa Câmara de Vereadores repleta de doutores e de oradores de primeira linha, um suplente de origem bem simples e modesta, de pouca instrução, assumiu na vaga do eleito que havia falecido. Doido para fazer sua estreia na tribuna, ele se via impedido ante à rica oratória das excelências do PSD, UDN e PTB daqueles tempos. Era uma Câmara constituída por Américo Teixeira, Aguilera Campos, João Baptista da Silva, Jorge El-Jaick, entre outros, políticos inflamados e com o dom da palavra.
Ao manifestar sua falta de preparo para fazer seu primeiro discurso, o nosso recém-empossado vereador foi se lamentar, lá no Galeria Bar, logo com quem? Teté, o José Bertão, frequentador assíduo das reuniões da Câmara e um tremendo gozador. Argumentando que ele poderia muito bem fazer um discurso que marcasse sua estreia, Teté ficou de elaborar, por escrito, uma fala à altura. Quem conhecia o Teté soube com antecedência que alguma ele iria preparar. Dito e feito: em meio a termos em latim e palavras pra lá de rebuscadas, nosso edil foi lendo o discurso preparado por Teté, que fechou com um gran finale:
“E saibam vossas excelências que eu, depois de tudo que disse aqui, afirmo de alto e bom som que sou um pederasta passivo e convicto”.
Mais, não disse, e muito menos foi perguntado.
4. VISITA ILUSTRE
José Bertão, o Teté, artista plástico, era mestre em pinturas a bico de pena. Suas obras estão eternizadas em quadros e livros com imagens de Nova Friburgo. Boa praça, era também um autêntico moleque, na verdadeira acepção da palavra. Um brincalhão, que gozava de tudo e de todos.
Esta ele preparou para o mais famoso repórter da cidade, com sobras para o secretário de Turismo da Prefeitura, ambos bastante conhecidos nos meios sociais e políticos.
Nas rodas de café do Galeria Bar, Teté soltou a notícia de que um grande escritor português estava passando férias em Nova Friburgo e que nenhuma autoridade municipal havia se dado conta da importância da visita.
“Imaginem só, o Guerra Junqueiro está há mais de um mês no Hotel Sans Souci e ninguém foi fazer uma visita a ele. Nem da Academia de Letras e nem da Prefeitura!”, falou bem alto o Teté, sabendo que o jornalista estava ao lado, ouvindo e pescando a conversa.
Como era de oposição, o repórter não teve dúvida e na coluna semanal de “A Paz” estampou com destaque a notícia, sem antes consultar alguém que poderia lhe informar que o poeta português não estaria em Nova Friburgo, pois falecera em 1923 (“Causos” também é cultura).
A notícia repercutiu na Prefeitura e o então secretário de Turismo mandou que um funcionário levasse ao ilustre escritor uma lembrança da cidade: um prato com os emblemas dos distritos pintados à mão.
5. DÚVIDA CRUEL
Uma do futebol friburguense.
Partida válida pelo campeonato estadual de seleções e a equipe friburguense disputava a ponta da tabela contra a seleção de São Gonçalo. Rádio Friburgo presente, com a narração inigualável de Rodolpho Abbud e os comentários do intrépido repórter de campo, Duarte Filho.
Um jogador de nossa seleção cai machucado em campo e logo é cercado pelo juiz e jogadores, e atendido pelo massagista. Não conseguindo identificar o atleta contundido, Rodolpho pede ajuda ao seu repórter, que também não conseguia ver direito quem estava caído, mas prontamente respondeu:
“Alô Rodolpho, há um jogador de nossa defesa sendo atendido. Daqui onde estou, não estou vendo direito, mas posso adiantar que ou é o Chiminga ou é o Agnaldo”.
A reportagem estaria perfeita se não fosse por alguns pequenos detalhes: Chiminga é descendente de alemães, louro, alto, pele alva e olhos claros.
Agnaldo era um negão, baixinho e troncudo, dono de um sorriso inesquecível e que gostava de contar esta e outras histórias do futebol friburguense.
CONTO COM VOCÊS
São muitos os amigos e leitores que pedem que eu conte casos famosos e divertidos da cidade. Peço a todos que os remetam para o endereço www.causosfriburguenses.com.br, que os contarei aqui, na coluna, e também da Luau TV.
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