06/04/2012



Essência e aparência - 12 a 14 de novembro 2011

Maurício Siaines

Nem, o chefe do tráfico na favela da Rocinha, na Zona Sul do Rio de Janeiro, foi preso nesta quinta-feira, 10, em operação mirabolante noticiada pelos telejornais. Ficou em segundo plano nos noticiários que a prisão foi possível a partir de trabalho de inteligência realizado pela Polícia Federal. O trabalho de investigação não combina com noticiários festivos, é monótono, sem graça.
Além do mais, uma pergunta incomoda: será mesmo o tráfico de drogas o problema principal a ser enfrentado, ou serão as milícias? Estas dominam grandes áreas e estão infiltradas na máquina do Estado, foram responsáveis pelo recente assassinato da juíza Patrícia Acioli e articulam quase que livremente atentados contra o deputado Marcelo Freixo, que as denuncia. Comemorar a prisão de Nem não pode levar ao esquecimento das milícias.
As notícias do afastamento do primeiro-ministro italiano Silvio Berlusconi provocaram alta nas bolsas de valores. Esta seria uma boa notícia a levar otimismo aos mercados. Mas não basta a saída do governante fanfarrão, identificado com o ditador Benito Mussolini (1883-1945). Umberto Eco, pensador e romancista italiano, de 79 anos, entendeu o afastamento do primeiro-ministro como “o fim de um pesadelo”, embora considere que a crise pela qual passa a Itália teria acontecido mesmo sem Berlusconi. Ou seja, a presença de Berlusconi na direção dos destinos da Itália seria apenas a aparência de algo muito maior que gerou a crise atual.
Essa distância entre essência e aparência certamente terá estado presente em Nova Friburgo nas manifestações públicas desta sexta-feira, 11. Escrevo no Rio de Janeiro antes das manifestações, isto é, estou distante no tempo e no espaço dos acontecimentos, mas acredito que a manifestação não terá representado toda a complexidade da inclinação geral do povo de Nova Friburgo.
Parece-me existir uma grande revolta não se sabe muito bem contra o quê. Há uma tendência—desta talvez em todo o país—a considerar todos os políticos como personagens da qualidade do recentemente preso Nem e o desejo de vê-los terem o mesmo destino. Figuras que oscilam entre o trágico e o ridículo como Berlusconi parecem reforçar essa convicção.
Antecessor do atual político italiano que se retira, Mussolini terminou fuzilado, com o corpo exposto à execração pública, dependurado de cabeça para baixo, em praça da cidade de Milão, a mesma de Berlusconi e de Umberto Eco. E todo esse espetáculo não impediu a repetição do drama.
A decisão judicial que afastou nesta semana o prefeito interino de Nova Friburgo pode até ter saciado um pouco do desejo popular de encontrar culpados. E mesmo que os acusados sejam realmente culpados, as coisas não vão mudar por este simples fato.
As manifestações desta sexta-feira, acredito, terão sido cabíveis e justificadas mas não serão suficientes. É preciso agir de maneira diferente, é preciso pensar no tipo de vida social que gerou a situação atual e transformá-la com os instrumentos que a lei do Estado democrático prevê. E para tal ação é preciso não se deixar iludir por aparências e espetáculos.



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