06/04/2012



Autoritarismo e simpatia - 5 a 7 de novembro 2011

Maurício Siaines

Há certa confusão entre ser autoritário e ser rigoroso na observação de normas. Muitas vezes, pessoas que insistem no cumprimento de normas previamente acordadas são tidas como autoritárias. É curiosa esta confusão porque o autoritarismo—pelo menos na política—é aquele regime em que o chefe não tem qualquer dever a cumprir e sua vontade se impõe sem consulta a qualquer lei. Uma característica da gestão democrática é o respeito às normas nascidas da dinâmica social, com suas diferenças e seus conflitos, independente da simpatia ou não da pessoa que as aplica.
Um dos aspectos revoltantes do regime que vivemos entre 1964 e 1985 foi justamente este: um golpe de força contrariou a Constituição; em seguida, em um ritmo crescente o processo legislativo foi se tornando propriedade de grupo cada vez mais restrito e este não tinha obrigação de consultar ninguém, nem de atender a qualquer acordo. A vontade do chefe autoritário era a lei. O Ato Institucional no 5, de 13 de dezembro de 1968, conferia à pessoa do presidente da República o poder de legislar, isto é, de ditar sua vontade, além da função de executar. Este até ouvia, às vezes, alguns pares de mesma patente.
Esses chefes podem até ter uma feição simpática ou cordial. O general Médici foi muitas vezes chamado pelos bajuladores de plantão nos meios de comunicação de “presidente gente como a gente”, embora governasse usando os poderes do AI-5 e em sua gestão se cometessem tantas violências e transgressões a princípios do direito, especialmente àqueles que dizem respeito à dignidade humana. Fotos do ditador com seu radinho de pilha acompanhando comentários de jogos nas tribunas do Maracanã eram comuns. E provavelmente ele não fingia, torcia e se angustiava com os jogos como as pessoas comuns. Da mesma maneira, seu antecessor Costa e Silva vibrava com corridas de cavalos e assim era mostrado pela mídia compreensiva. Esta, por sua vez, beneficiava-se com medidas do regime como créditos de bancos estatais ou avais para transações com terceiros. Muitas delas tenebrosas, como já disse o poeta.
Pessoas apontadas como rabugentas e mal-humoradas por contrariar interesses em defesa da norma podem gerir instituições de maneira democrática, enquanto outras, aparentemente simpáticas e amáveis, podem fazê-lo de modo profundamente autoritário. É preciso saber observar a diferença entre o limite dado em respeito às normas e o aspecto agradável e aparentemente amistoso para não se ter surpresas do tipo que levam àquela frase: “Mas ele era tão boa gente, como pôde fazer tal coisa?!”.



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