06/04/2012



Ser ladrão ou ser de esquerda: eis a questão - 29 a 31 de outubro 2011

Maurício Siaines

O jornalista Eugênio Bucci, 53 anos, professor da Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo, escreveu artigo na revista Época de 24 de outubro de 2011, com o título “Por que roubam os comunistas?”, em que discute a questão da corruptibilidade de militantes de esquerda. Faz um paralelo entre os esquerdistas corrompidos e a figura mitológica de Che Guevara, “misto de verdade e de loucura”, lembrando “que ladrão ele não foi”. Bucci afirma o seguinte:
“E os ladrões proliferaram nas fileiras de esquerda. Rechonchudos e felizes. Não roubaram apenas automóveis, mas utopias. Transformaram sonhos dos camaradas em butim. Estão por aí, de terno, gravata e dinheiro vivo dentro de casa. Nisso se resume o grande dilema existencial e político das organizações de esquerda.”
O Partido Comunista Brasileiro (PCB) emitiu nota política em 25 de outubro de 2011, explicando suas diferenças com o Partido Comunista do Brasil (PCdoB), alvo mais recente de denúncias de desvios de recursos públicos. Trata-se de um documento oportuno diante da onda que se levanta valendo-se de supostas irregularidades cometidas por membros do PCdoB. Diz um trecho da nota:
“O desgaste provocado pela degeneração do PCdoB  tem sido muito grande para a luta dos comunistas e outros revolucionários, permitindo à mídia hegemônica criar uma imagem de que todos são ‘farinha do mesmo saco’, inclusive os comunistas”.
Não querendo desculpar os corruptos do momento e esperando apenas que sua culpa seja comprovada através de todos os instrumentos do direito, lembro que a capacidade de roubar está presente em todos os seres humanos e não é característica de ser de esquerda ou de direita, cristão ou muçulmano, flamenguista, vascaíno, corinthiano ou palmeirense. E a questão é um pouco mais complicada do que o apresentado nas acusações do momento.
Nos anos 1960/70, alguns militantes de esquerda brasileiros roubavam bancos, com a pretensão de financiar a luta pelo socialismo e contra a ditadura. Eram ladrões? Tecnicamente, sim, mas justificava-se moralmente sua ação porque se entendia que os bancos eram os depositários do valor roubado aos trabalhadores, responsáveis pela produção econômica, através da baixa remuneração do trabalho, sendo esta a explicação para a acumulação do capital, razão de ser do sistema capitalista. Logo, os roubos a bancos não eram mais do que a recuperação do que havia sido roubado.
Trata-se, enfim, de uma questão um pouco mais complexa. A recente onda parece considerar todas as pessoas de esquerda como corruptas, pelo menos em potencial. E, em se tratando de ondas, vale a pena lembrar Lulu Santos:
“A vida vem em ondas
Como um mar
Num indo e vindo infinito
Tudo que se vê não é
Igual ao que a gente
Viu há um segundo
Tudo muda o tempo todo
No mundo”.



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