06/04/2012
Dizem que na véspera do jogo entre Brasil e União Soviética, na Copa de 1958, o técnico Vicente Feola chamou Garrincha num canto e explicou o que ele deveria fazer em campo. “Mané, você pega a bola e dribla o primeiro beque; quando chegar o segundo, você dribla também. Vai até a linha de fundo e cruza forte para trás, aí o Vavá entra e marca o gol!” Com um sorriso, Garrincha respondeu: “Tudo bem, seu Feola, mas o senhor já combinou isso com os russos?”.
Lembrei desta história quando começaram as minhas férias. Todo mundo sabe que planejar férias é igual comprar produto pela TV: você sabe que vai dar errado, mas faz assim mesmo. Pois bem. Após longas e discutíveis férias, estamos de volta. Após enorme planejamento, as férias terminaram. Não fui à praia. Não fui ao campo. Não fui ao parque. Enfim, não fui! Então, as férias terminaram sem terem sequer começado.
Tudo começou quando decidi mudar de vida. Após anos da mais pura desordem organizacional (que, diga-se de passagem, sempre funcionou muito bem, obrigado...), desta vez decidi fazer diferente. Eu planejei. Sabia aonde ir nas minhas férias, onde ficar, quando voltar e quanto gastar. Perfeito. Mas esqueci de combinar com o destino. Foi onde se deu a desgraça.
Já no primeiro dia das supostas férias, eu descobri que não ia dar certo. Uma sucessão de problemas me obrigou a permanecer no trabalho durante toda a primeira semana. E a segunda. Na terceira semana, quando mal lembrava que estava de férias, surgiu uma luz no fim do túnel. Mas o problema da luz no fim do túnel é que às vezes é um trem em sentido contrário. Não deu outra. Descobri cinco dias seguidos em que poderia faltar ao trabalho sem causar maiores danos. Havia um sábado e um domingo no meio destes dias e os demais dias eram carnaval, mas férias são férias. E férias são sagradas...
As minhas “férias de carnaval” foram bem simples. E bem rápidas. Foi assim: Decidi viajar. O carro quebrou. Mandei pra oficina. A oficina fechou pro carnaval. Peguei o carro. O carnaval acabou. E acabaram as férias. Viu como a vida é descomplicada?
Mas, pensando bem, foi uma maravilha: não precisei dividir areia de praia com 100 mil pessoas, não precisei pegar fila pra comprar pão com 200 mil pessoas, não precisei ficar engarrafado com 300 mil pessoas e nem precisei levar cotoveladas de 400 mil pessoas besuntadas de protetor solar. Tá certo que essas pessoas viram o mar, se divertiram, pularam, correram, riram e desestressaram. Mas aposto que nem estavam de férias como eu... tadinhas...
No próximo ano, já sei o que fazer. Quando anunciarem as minhas férias, vou jogar tudo pro alto. Vou sair do jeito que estiver, na mesma hora, só com a roupa do corpo, entrar no primeiro ônibus que encontrar aberto e só vou parar onde tenha sol. E só quando estiver lá vou pensar se volto um dia. Só tem um problema. Tudo isso significa que estou planejando as próximas férias. Planejamento prévio. Logo, não vai dar certo...
Bem, por hora, passadas as férias, posso retornar à vida. E o primeiro passo seria retornar a esta coluna. Eu ia escrever sobre o ministro da pesca que não sabe pescar, sobre o carnaval, os supersalários dos desembargadores ou sobre o governo. Mas não posso fazer isso. Acabei de constatar que oficialmente minhas férias terminam hoje. Então estou de férias. E férias pra mim são sagradas... a gente se vê na semana que vem...
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