06/04/2012



Ah, esses números... - 3 a 5 de dezembro 2011

Alzimar Andrade

Todo mundo sabe de cor o número de sua casa, o número de seu próprio telefone, o aniversário da mulher, o dia do casamento ou, pelo menos, o número de vezes em que se enrascou porque se esqueceu das duas últimas datas, o que remete automaticamente a outro número: a quantidade de crises conjugais provocadas pelo seu esquecimento.
O homem sempre precisou saber quantificar, somar e enumerar. E é curioso notar que a noção de quantidade não é uma exclusividade humana. Algumas espécies, em especial os pássaros, costumam ter noção de quantidade. Reza a história que um senhor feudal estava decidido a matar um corvo que tinha feito ninho na torre de seu castelo. Repetidas vezes tentou surpreender o pássaro, mas em vão: quando o homem se aproximava, o corvo voava de seu ninho, colocava-se vigilante no alto de uma árvore próxima, e só voltava à torre quando o homem saía. Um dia, o sujeito recorreu a um truque: dois homens entraram na torre, um ficou lá dentro e o outro saiu e se foi. O pássaro não se deixou enganar e, para voltar, esperou que o segundo homem tivesse saído. O estratagema foi repetido nos dias seguintes com dois, três e quatro homens, sempre sem êxito. Finalmente, cinco homens entraram na torre e depois saíram quatro, um atrás do outro, enquanto o quinto aprontava o trabuco à espera do corvo. Então o pássaro perdeu a conta. E a vida.
Na verdade, a necessidade de saber contar remonta a longas datas. No início, o homem precisava contar quantos metros havia entre ele e o mamute mais próximo, para sobreviver. Depois, precisou saber contar quantas ovelhas tinha, para não ser roubado. Com o tempo, a coisa foi se complicando e ele precisou saber contar quantas vezes a mulher já havia ameaçado lhe abandonar se não se emendasse. E tudo isso na pré-historia.
Na Idade Média, o homem tinha de saber contar quantos inimigos se aproximavam de seu castelo para decidir rapidamente se fugia ou lutava. Mais tarde, já na Revolução Francesa, o sujeito contava o número de cabeças que rolavam, a quantidade de pães a serem distribuídos para o povo e tudo isso, é claro, sem perder a conta de quantas vezes a mulher ameaçou lhe abandonar se não se emendasse.
Com o advento das eleições, o homem passou a contar o número de votos e o número de corruptos. Nunca sabendo qual era maior. Quando passou a existir crise financeira, o homem passou a contar também a quantidade de filhos, para evitar uma explosão demográfica. E, é claro, sempre atento ao número de vezes que a mulher ameaçou lhe abandonar se não se emendasse.
No mundo moderno, o homem conta dias, conta horas, conta minutos e segundos, conta passos, conta crises, conta lágrimas e sorrisos, vitórias e derrotas, conta contas e conta dinheiro. É tanta conta e ele ainda arruma tempo para contar vantagem, contar piada, contar causos e contar mentiras, só pra não parar de contar. E tudo isso sem perder a conta da quantidade de vezes em que a mulher já ameaçou lhe abandonar se não se emendar. E, para piorar, agora ele não pode perder a conta também do número de vezes em que ela mandou botar o lixo pra fora.
Mas, por falar em número, neste final de semana, com o fim do campeonato brasileiro, alguns números virão à tona. Alguns que trazem alegria, como o número de vezes que seu time já foi campeão brasileiro. Como se sabe, para a maioria dos torcedores brasileiros, flamenguistas, seis vezes. Para outros torcedores, menos afortunados, apenas quatro campeonatos e mais uma quantidade enorme de vice-campeonatos, os quais ninguém gosta de contar. Mas são números, assim mesmo. E que prometem aumentar neste fim de semana...
Ah, esses números... por vezes, são tão cruéis...



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