02/07/2012
COM QUE ROUPA EU VOU
Faz frio e tento esquentar os pés para que enfim venha o sono confortável e renovador. Mas os minutos correm no relógio, e... nada. Levanto, busco um outro edredon que possa minimizar o desconforto e tento, mais uma vez, dormir. Nada. Estarei sem sono ou é o frio que me impede o descanso a que tenho direito por hábito e merecimento? E, nada.
Conto carneiros imaginários, mas é a rotina de um dia que se reconstrói na mente impedindo-me, agora, até mesmo de relaxar. Já não é o frio, mas a agenda lotada do dia seguinte, atendimentos, projetos, respostas, assinaturas, decisões, e com que roupa irei a todos os compromissos que nada têm em comum e exigirão os personagens diversos quase nos mesmos horários... Ah... mas se estivesse calor seria tudo mais fácil. Calor? Mas que calor seria possível num Maio de céu de intenso azul durante o dia, noites de estrelas que quase caem sobre as nossas cabeças, luas brilhantes e quase tocáveis com as nossas mãos?
Frio? Calor? Se a temperatura estivesse alta eu por certo estaria sem sono a reclamar o calor mas como faz frio insisto em minha insatisfação. Não. A questão não é a temperatura, sou eu. Eu na minha insatisfação com tantas vontades, com projetos que considero urgentes, necessários, e o mundo girando com tanta rapidez que me sinto impotente diante do tempo. Quantos estarão agora como eu, a repassar o dia, a revirar a agenda de amanhã, a tentar soluções para coisas imediatas e mediáticas e que representarão passos importantes não somente para mim, mas para outros tantos?
Imediatamente é a insatisfação que ocupa o pensamento e devaneando tento decifrar as atitudes que tenho testemunhado, atos que traduzem um desconforto e ao mesmo tempo um desejo enorme de fazer, realizar e mudar. Mudar ainda que lá na frente, insatisfeitos, mudemos mais uma vez. Tenho visto tanta gente assim. A reclamar do calor e também do frio. Do silêncio e ora do barulho. De atitudes e da falta delas. Gente que aluga imóvel em rua de movimento e reclama do barulho. Gente solitária que não sai de casa. Gente que não sabe se quer chuva ou se quer sol. E gente que reclama de gente, de bicho, de tudo, mas não se dá conta de que deveria reclamar consigo mesmo, porque não é o frio que não esquenta os nossos meus pés fazendo- nos abraçar o sono, somos nós. Somente nós que não queremos dormir.
E não durmo. Nem relaxo. Não há posição na cama que me traga o sono. O travesseiro não se molda, o conforto não vem. Os pés agora aquecidos me incitam ainda mais a questionar a insatisfação. A tentar decifrar os porquês de tamanha insatisfação e me resolvo ao determinar que amanhã, diante de tantos compromissos diferentes, não é a roupa que me trará as soluções de que tanto preciso, mas a certeza de que a melhor maneira de mudar as coisas é fazendo, realizando, trabalhando para que resultados possam ser questionados e alcancem e respondam as insatisfações alheias. Elas jamais serão resolvidas. Eu jamais inventarei a roda. Mas poderei contribuir para que a engrenagem se lubrifique e funcione, e que ainda de carona eu possa exercitar a parceria, frutificando minhas ações para que todos se beneficiem da próxima colheita, ainda que não seja a esperada. Ainda que não alimente a todos nesta primeira safra.
Agora vou dormir porque o sono, este merecido prêmio aos que trabalham, sussurra em meus ouvidos pedindo-me espaço.