02/07/2012



Em Foco - 30/05/2012

David Massena
davidmassena52@gmail.com

JULGANDO A SI MESMO

Xuxa ganhou o noticiário na semana passada. O que não é novidade. A rainha dos baixinhos é estrelar, queiram ou não. Seu depoimento em horário nobre, falando das violências e abusos sofridos na infância, invadiu nossas casas num domingo, naquele programa que por si só já nos causa medo e desanimo pela segunda-feira que virá, prenuncio de uma nova semana que já começa no baixo-astral.
Ninguém duvida da carreira de sucesso da apresentadora que não é nenhuma referência de cultura e tão pouco exemplo de vida, mas que seu brilho e o seu talento para o que faz é inegável, ah, isso é. Mas também não sei se a sociedade respondeu ao seu ato de abrir a vida corajosamente, expor sua intimidade, com a mesma dignidade. Me assustou a voracidade com que, como abutres, deleitaram-se sobre as vísceras de um ser humano, fizeram humor, zombaram, e se fartaram com uma maldade que em nada contribui para um tema tão sério e tão invasivo como a violência infantil.
Parece mesmo que o ser humano não se dá conta da sua pequenez diante do mundo e das coisas do mundo. Parece que nem sabemos quem somos. Somos na verdade, e não há exceções, “frankensteins”de alma. Somos alinhavados, costurados, emendados e remendados, por tudo o que fizemos, vivemos e muitas vezes fomos forçados a ser. Ninguém é totalmente puro, casto ou verdadeiro. Ninguém é santo. Somos uma colcha de retalhos daquilo que sobrou dos nossos erros, acertos, conquistas e derrotas. O que não nos empodera ao ponto de nos considerarmos juízes da vida alheia.
A moça bonita que estourou no Brasil dos anos 80, em que ser gostosa, boazuda e tesuda eram predicados para o sucesso—e será que ainda não é?—é a mesma que hoje, crucificada, traz à tona um tema emblemático que todos nós cidadãos temos por obrigação ajudar a resolver. A moça bonita que fez de tudo para chegar ao estrelato—e outras tantas ainda fazem—é a mesma que mantém projetos assistenciais com o seu próprio dinheiro e não se furta a abraçar outras tantas causas em nome de uma infância mais justa e feliz, a que pelo visto não teve direito.
E será que esta moça bonita não se condenou já com os seus erros ou tentativas de acertos? Será que não se fez culpada pelo que foi obrigada a viver na infância, inocentemente? E será que não a estamos obrigando a cumprir nova pena com a nossa incompreensão e a nossa impetuosidade em querer vestir a capa e empunhar a espada da justiça? Quem somos? Tivesse Xuxa a coragem de hoje tempos atrás, seria apedrejada em via pública, tamanha a nossa imaturidade. Tamanha a nossa irresponsabilidade em desviar o foco das atenções, já que hoje, famintos, cheios de tecnologia, informação e liberdade, esquecemos que o prato principal não é o sucesso da apresentadora, não é a sua beleza cada vez mais reluzente, e nem os erros ou acertos que viveu, mas a sua dor. Uma dor que deveria ser de todos nós.
Xuxa brilhará ainda por muitos anos. Seguirá a sua carreira estrelar entre percalços, acertos, sucesso e fracassos, como todos nós. Costurará ainda muitos pedaços de vida em sua alma, construirá outros tantos castelos de faz de conta, fará parte do imaginário infantil de outras tantas gerações, e prosseguirá com suas ações e obras assistenciais, remendando ou tentando reformar o seu passado e a sua infância tão pouco felizes. Como muitos de nós. Enquanto isso a violência infantil se agiganta e por vezes chega a se avizinhar em nossas vidas, pedindo que em vez de julgar, façamos a nossa parte para mudar o mundo e proteger as nossas crianças.



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