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Alzimar Andrade


Pior do que tá não fica...


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O cronista é aquele que consegue extrair do cotidiano uma história, simplesmente observando o que acontece à sua volta. Frequentemente eu coloco esta teoria à prova. Mas, desta vez, reconheço, exagerei...
Madrugada. Eu estava deitado, assistindo TV, quando me lembrei de que estava me esquecendo de alguma coisa. Isso ocorre com frequência. Não de eu me lembrar de que havia esquecido de alguma coisa, mas de me esquecer de me lembrar a tempo de algo que não poderia ter esquecido. Bom, deixa pra lá. São duas da manhã e não vou conseguir me fazer entender. O negócio é que me lembrei de que não havia escrito a coluna desta semana. E eu precisava mandar o texto pro jornal na manhã seguinte.
Cheio de sono, fui pra varanda. Mesmo de madrugada. Não queira entender isso. Foi quando me lembrei desta história de o cronista tirar do nada uma história. O nada eu já tinha. Só faltava a história. Enquanto pensava no que escrever, um mosquito preguiçoso pousou pachorrentamente no muro à minha frente. Fiquei olhando pra ele, pensando se um mosquito daria uma boa história. Não. Não daria. Não precisava apelar também, né?
Enquanto eu pensava, surgiu uma aranha que, juro, não era aborígine. Eu nunca a tinha visto antes por lá. Aliás, o mosquito também não viu, pois ela partiu pra cima e o apanhou, antes que ele conseguisse gritar. Bom, não sei se mosquito grita, mas este, com certeza, não grita. Nunca mais. Pois eu já estava começando a me interessar pela cadeia alimentar, quando surgiu um camaleão. Sério. O bicho que, juro, também não era autóctone, surgiu de trás do muro e, antes que a aranha percebesse, ela já estava sendo traçada, junto com o mosquito. Maior carnificina.
Balancei a cabeça, desolado. Duas da manhã, eu caindo de sono, assistindo a um banquete do mundo animal e sem qualquer ideia para escrever. Olhando aquele pequeno universo animalesco que me cercava, pensei até em contar alguma história sobre formigas e cigarras, mas desisti, imaginando que ninguém em sã consciência escreveria uma história sobre formigas e cigarras. Isso, com certeza, jamais daria certo. Pensei em elevar o porte dos bichos, transformando-os, quem sabe, em tartarugas e coelhos, que estariam disputando uma corrida e... desisti também. Só alguém muito desesperado escreveria uma história tão fantasiosa envolvendo uma corrida entre uma tartaruga e um coelho. Além do mais, se a ideia fosse boa, alguém já o teria feito, com certeza...
Eu já estava indo dormir, quando prestei atenção na televisão, que berrava sozinha no meu quarto. Eu sempre deixo a TV ligada lá em casa, numa intensidade que alegra a Energisa e num volume que desespera os meus vizinhos. Pois bem. Eu já ia desistir, quando ouvi um programa de TV comentando sobre a candidatura do Tiririca. Pra quem não sabe, ele é candidato por São Paulo. Nada que me espante. Um estado que reelegeu por décadas um Maluf é capaz de qualquer coisa. E continuar impune. Mas o curioso é o slogan dele: “Vote em Tiririca. Pior do que tá não fica”.
Pausa. Dupla. Demorada.
Não sei o que era mais dramático. Eu tentando pensar no que escrever ou o Tiririca tentando se eleger. E, pior, pra Deputado Federal, ou seja, aquele povo doido de São Paulo vai votar num palhaço e depois o Brasil todo vai ter que aturar as leis feitas por ele. Inclusive eu. E você. Sinto muito...
Nada contra os palhaços, é claro, mas acho que já temos palhaços demais na política. Dos dois lados da urna...
Desisti de escrever. Depois de ver a campanha do Tiririca, acho que o meu drama pessoal não é nada. Dramático mesmo é saber que um palhaço fará nossas leis. Ainda que nos sintamos palhaços cumprindo muitas delas. A chance de ele fazer uma lei que preste é a mesma que teria o camaleão, que ainda se banqueteava, alheio ao meu drama. Ou a mesma da aranha ou do mosquito, estes últimos se vivos fossem, é claro. Enquanto eu pensava nisso, o camaleão despencou do muro. Dentro do lago. Enquanto eu procurava me lembrar se camaleão sabe nadar, a minha tartaruga, com uma agilidade que ela não deveria ter, abocanhou o pobre do camaleão. Coitado...
Decididamente, alguns de nós não estávamos tendo uma boa noite. Pensando bem, estávamos todos errados. Eu, o mosquito, a aranha, o camaleão e o Tiririca: Pior do que tá, fica. E como fica...
Só a tartaruga discorda...




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