
Lurdes Gonçalves
escrevinhadora@gigalink.com.br
EXPULSANDO FANTASMAS
Mal começamos a caminhar com nossos próprios pés, ainda inseguros pela estrada de nosso viver pessoal, tropeçamos com os fantasmas. De início, são fantasminhas até ridículos, saídos do folclore universal – bruxas, ogros, dragões etc – personificando o mal e gerando o medo em nossas mentes inseguras.
À medida que avançamos em idade e descobrimos conceitos mais realistas sobre nosso universo particular, esses mitos adquirem formas e nomes mais condizentes com o nosso dia a dia. Insegurança e medo das notas baixas nas provas colegiais; expectativa e incertezas sobre a primeira experiência com o amor e o sexo; vaga e timorata preocupação com o que enfrentaremos na vida adulta; preconceitos dos mais ridículos aos mais degradantes.
Assim cercados de todos os lados por fantasmas, que nos assustam com perversa malícia, vamos avançando pelo emaranhado cipoal de nosso viver, empurrados pela pressa dos anos que não podem parar. Atingimos os vinte, trinta, quarenta de idade. Começamos a notar os primeiros desgastes da máquina de carne, ossos, sangue, músculos e nervos que nos mantém vivos. E novos fantasmas se apressam a cercar-nos, perversamente ressaltando nossa vulnerabilidade em enfrentar os microorganismos que ameaçam a matéria frágil. Passamos a frequentar consultórios médicos, a selecionar alimentos mais saudáveis, dispostos a evitar e combater os dois inimigos que se anunciam no horizonte – doenças e declínio. Intimidados pelos cuidados com a nossa integridade física, financeira e social, somos tolhidos até em impulsos generosos para com nossos semelhantes.
Ao adentrarmos os 70 anos, lá está outro espectro à espera, decidido a atormentar-nos com lembretes capciosos de que nossa jornada terrena se aproxima do fim. A pouca distância de uma década, o indesejado fantasma dos 80 começa a mostrar sua cara feia, desafiando nossa vaidade e autoconfiança. À sua sombra, a mais temível das ameaças, em sua fantasia de caveira, tenta lembrar-nos, com risinho zombeteiro, o melancólico e inexorável destino de toda matéria. Todo o exército fantasmal se diverte com a nossa angústia sem defesa, cria falsos sintomas de debilidade e decadência física, com o propósito sádico de assustar-nos.
E nos vemos frente à frente com os 80 anos. Sem qualquer pudor, assumimos com galhardia a ameaça desse fantasma que sempre nos assustou – a velhice. Ao invés do vazio de uma decadência sem glória nem troféus, somos, porém, surpreendidos com uma etapa nova, que nos transmite energia e coragem para ir em frente.
Percebemos que progressivamente os espantalhos, que tanto interferiam em nossos caminhos, estão se afastando. Deixando-nos livres para externar a ternura e o bem querer protetor ante o riso ou o pranto de uma criança. Para deixar assomar as lágrimas e a emoção tão gratas ao som de uma música inspirada ou à vista de algo que nos lembre a criação perfeita, natural ou transmitida por uma obra de arte humana. A complacência quase cúmplice ao surpreender arroubos da juventude em sua descoberta do amor. A solidariedade fraterna no defrontar a placidez de um contemporâneo já também livre de seus fantasmas.
Esquecemos o peso das rugas, os cabelos brancos, as pernas trôpegas. Sorrimos complacentes à aproximação dos 90 anos, como consequência normal do tempo que corrói a matéria. Não. Não nos tornamos mais sábios nem mais atrevidos em nossa autenticidade. Apenas livres e menos tímidos em externar sentimentos e impulsos até então tolhidos pela malícia de nossos fantasmas. Nos harmonizamos com o universo.
Reconhecimento concedido à velhice pelo seu longo e árduo caminhar entre dúvidas, receios, escolhas erradas e perverso monitoramento de espectros mal intencionados. Pacificando-nos para o encontro inevitável com as Verdades e as Certezas, que muitos de nós perseguimos em vão ao longo de nosso caminhar pelos caminhos terrenos.
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