Dos meus muitos anos de repórter político, desde 1948 quando o meu sogro Bittencourt de Sá, em carta ao diretor de A Notícia, Candido de Campos, que levei em mão, pediu uma vaga para o genro sem qualquer experiência e me encaminhou ao Silva Ramos, comecei a minha longa carreira como jornalista.
Silva Ramos, de quem me tornaria amigo para o resto vida, foi de uma rude franqueza: “O Bittencourt de Sá está pedindo uma vaga para você, bacharel em Direito, mas não necessariamente analfabeto. Senta naquela cadeira e reescreva em linguagem de jornal esta matéria”.
Era uma pífia nota sobre uma “exposição fotográfica das catedrais inglesas” da qual nunca mais tive notícia.
Daí em diante fui galgando cada degrau com os tropeços de principiante.
Nos meus livros Conversa com a Memória e Casos da Fazenda do Retiro registro alguns dos episódios de uma longa trajetória. Dela tenho discreto orgulho. Fui muito além do que esperava.
Dos personagens mais contraditórios desta época o Ademar de Barros que desembarcou com a esposa, dona Leonor, de um trem com a determinação de realizar a carreira política que o levaria a governador de São Paulo, eleito e reeleito, apesar campanha implacável de O Estado de São Paulo dos meus amigos da família Mesquita. Até o nome do governador era estropiado A. de Barros.
Ademar de Barros não resistiu às sucessivas derrotas e caiu em profunda depressão. O governador que se hospedava nas suítes do Copacabana Palace e recebia o jornalista com a maior cordialidade fui visitar no apartamento imundo uma pensão na Lapa, onde o encontrei descalço, com uma calça de pijama suja, de braguilha aberta.
Por algumas vezes cruzei com o Ademar de Barros, bem disposto e elegante.
Mas, tenho na memória ainda os versos que não podem ser publicados sem cortes:
“Adão foi feito de barro,
de um barro bom e batuta,
Ademar também é de barro,
Mas, barro filho da rima...
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